A raiz de nossa curiosidade

Que o ser humano é curioso não é novidade. Mas o que desperta nossa curiosidade? Nos adultos é fácil, qualquer evento novo, desconhecido. E em um recém-nascido, quando tudo é novo? Inicialmente se acreditava que tudo, absolutamente tudo, aguçava a curiosidade de um recém-nascido. Foi então que se fez um experimento clássico que destruiu esse mito. Ele funciona com bebês de no mínimo 2 meses de idade.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2015 | 02h04

Um brinquedo colorido é colocado sobre uma mesa. O cientista esconde o brinquedo com uma tampa e coloca outra tampa (sem nada embaixo) sobre a mesa. Após alguns segundos, o cientista retira ambas as tampas, revelando novamente o brinquedo. Mas aqui entra o truque: manipulando o brinquedo por baixo da mesa, ele pode reaparecer embaixo da tampa original (aquela que o bebê havia visto ser colocada sobre o brinquedo) ou debaixo da outra tampa (onde antes não havia nada). Monitorando os olhos dos bebês, os cientistas demonstraram que o resultado inesperado (o reaparecimento do brinquedo na tampa errada) chama muito mais a atenção do bebê: ele passa mais tempo observando o brinquedo. Essa observação demonstra que o inesperado é um estímulo para o recém-nascido, e mostra também algo muito mais básico sobre a natureza humana. Se ao nascer já estranhamos que algo reapareça no lugar "errado", então nosso cérebro já nasce com um modelo do que é esperado (ele "sabe" que o brinquedo não pode mudar de lugar) e, portanto, com um modelo mental de como operam as leis do mundo físico. Mas qual a vantagem de nascermos com expectativas já definidas de como o mundo funciona?

Agora essa pergunta foi respondida. Dois cientistas demonstraram que quando a expectativa de um bebê é violada, ele aprende mais rápido e testa experimentalmente seu conhecimento.

Os novos experimentos são parecidos com o anterior, feitos com bebês com menos de 12 meses. Um experimento desafia a expectativa de continuidade temporal (o brinquedo reaparece no lugar errado), outro de solidez (um carrinho ou uma bola parecem atravessar uma parede sólida) e o terceiro a expectativa de suporte (o brinquedo não cai quando o suporte é retirado). A diferença é que nesses experimentos os cientistas, após deixar os bebês olharem espantados o resultado inesperado, pegam o objeto e revelam uma propriedade oculta (um som). Em seguida, os cientistas avaliam se o bebê associou o som ao objeto. Eles descobriram que quando o objeto apresenta comportamentos inesperados (reaparecem em lugares inesperados), os bebês memorizam o som associado. Isso demonstra que aprendem melhor quando estimulados pelo inesperado.

Na última etapa do experimento, os cientistas deixam os bebês brincarem com os objetos usados nos experimentos. Aí fica interessante. Os bebês preferem os objetos que apresentaram comportamento anormal e, nesse caso, a brincadeira preferida é tentar repetir com o objeto o que observaram. Mas se o brinquedo não caiu quando o suporte foi retirado, o bebê joga o objeto no chão para ver se ele cai. Se o brinquedo reapareceu em um local estranho, o bebê tenta ocultar o objeto. Nada disso acontece de maneira reprodutiva se o objeto escolhido havia se comportado de maneira "normal".

A conclusão é que nascemos com uma ideia pré-formada do mundo, e objetos que não se comportam como esperado despertam curiosidade. Aspectos associados ao objeto são rapidamente memorizados. Além disso, quando conseguimos obter esse objeto, tentamos repetir o observado. E tudo isso antes de fazermos 1 ano. Nada mal.

O que essas descobertas sugerem é que esse mecanismo cerebral, capaz de identificar comportamentos estranhos e testar a reprodutibilidade desses comportamentos, permite ao ser humano focar seu esforço de aprendizado em coisas novas. Esse mecanismo seria essencial para que o cérebro, ante a diversidade das experiências vividas na infância, selecione o que é novo e foque sua capacidade de aprendizado nessas experiências. Essa é a raiz de nossa curiosidade.

* É biólogo

Mais informações: Observing the Unexpected Enhances Infants' Learning and Exploration. Science Vol. 348 Pag. 91 2015

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