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A origem de uma nova espécie

Fernando Reinach

Em A Origem das Espécies, Darwin propôs um mecanismo capaz de explicar como novas espécies foram criadas. Darwin imaginou que o mesmo mecanismo que havia originado toda a biodiversidade ainda estava em ação e novas espécies estariam surgindo a cada momento. Mas o mecanismo de seleção natural proposto por ele é lento. Da mesma maneira que é impossível observar de um banco o crescimento de uma montanha, ou a elevação do nível do mar, os cientistas acreditavam que o surgimento de uma nova espécie seria impossível de observar no curto período de tempo que dura a vida de um ser humano.

Isso não é verdade. Um casal de biólogos dedicou 40 anos de sua vida ao estudo de uma pequena comunidade de pássaros que vivem em uma minúscula ilha no meio do Arquipélago de Galápagos. Nessas quatro décadas, puderam observar e documentar, ao vivo e em cores, o surgimento de uma nova espécie de pássaro. E agora publicaram um livro maravilhoso contando como esta nova espécie surgiu. É a comprovação cabal de que Darwin estava certo.

A Ilha de Daphne Major é minúscula. Ela é arredondada, com um diâmetro de 750 metros, e uma altura máxima de 120 metros. É o topo de um vulcão inativo. As paredes externas da cratera são inclinadas e terminam no mar. As paredes internas da cratera também são inclinadas e terminam em uma pequena área no centro da cratera. Esta ilha, que nunca foi habitada por seres humanos, está a 8 quilômetros da Ilha de Santa Cruz, tem somente 60 espécies de plantas, todas raras, e somente duas espécies de pássaros tentalhões (finches). A cada ano, existem na ilha no máximo 50 casais de pássaros que se reproduzem. A distância desta ilha para as ilha maiores é grande e muito raramente um tentalhão consegue voar de outra ilha para Daphne. Os que chegam, em geral, não sobrevivem. O clima varia muito, tanto durante o ano quanto ao longo dos ciclos de aproximadamente 7 anos, que correspondem aos fenômenos climáticos denominados de El Niño e La Niña.

Foram os pássaros desta ilha que o casal Peter e Rosemary Grant resolveram estudar. Em 1973, Peter Grant tinha 37 anos quando pisou na ilha com sua mulher, escalando a rocha pelo único lugar onde uma barco pequeno pode ancorar quando o mar está calmo. Entre 1973 e 2003, o casal viveu seis meses por ano acampado na ilha. Agora, com 77 anos, Peter e Rosemery descrevem o que descobriram ao longo destes 40 anos. Em 1994, a primeira metade de sua aventura foi narrada no livro The Beak of the Finch, que ganhou o Pulitzer Prize.

Como a população de pássaros na ilha é sempre menor do que 250 indivíduos, o casal foi capaz de, a cada ano, capturar todos os exemplares, identificá-los com anéis nas patas, e acompanhar sua vida cotidiana. Eles mapearam a localização de todos os ninhos, quais casais ocupavam cada ninho, quantos ovos eram produzidos, quantos filhotes nasciam, quantos sobreviviam, com quem cada um dos filhotes acasalava, e que tipo de frutos cada indivíduo consumia. Mapearam cada árvore da ilha, os frutos que ela produzia e como a quantidade de frutos variava ao longo dos anos.

Com base neste conhecimento quase completo dessa comunidade, eles puderam observar o efeito sobre os pássaros das mudanças na quantidade e qualidade das frutas ao longo do tempo. Ou seja, a seleção natural em ação. Como todos os anos os Grants mediam as características morfológicas dos pássaros (tamanho do bico, sua largura, o peso dos animais), foi possível documentar a mudança na morfologia dos pássaros ao longo das gerações, acompanhando como cada família e cada indivíduo reagia às mudanças no ambiente.

Em 1981, um único pássaro, um híbrido de duas espécies, chegou a Daphne e sobreviveu. Ao acasalar com os pássaros locais, criou uma família de descendentes bem adaptados ao ambiente da ilha. Aos poucos, esta família proliferou, começou a cruzar entre si, e se isolar dos outros pássaros. Finalmente se tornou uma nova espécie reprodutivamente isolada. Do mesmo modo, em 1982, os Grants observaram a chegada de uma nova espécie de pássaros à ilha e puderam acompanhar como ela se integrou ao ecossistema e como a nova espécie passou a competir com os habitantes locais.

É a riqueza de detalhes e eventos, analisados ao longo de 40 anos, que faz este estudo único na literatura científica. Afinal, quantas pessoas dedicam toda a sua vida a acompanhar a evolução de um ecossistema simples e isolado?

Se você ainda tem dúvidas sobre a evolução das espécies, não tem paciência para entender as bases genéticas da evolução, sem dúvida você vai gostar destes dois livros.

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: 40 YEARS OF EVOLUTION. DARWINS FINCHES ON DAPHNE MAJOR ISLAND. PETER R. GRANT AND B. ROSEMARY GRANT. PRINCETON UNIVERSITY PRESS 2014

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