A origem da primeira ressaca

O álcool nos deixa bêbados. O que muitos não sabem é que ele também alimenta. Nosso corpo transforma o álcool em uma molécula chamada acetaldeído. Depois transforma o acetaldeído em outra molécula chamada acetato. Quando bebemos pouco, o álcool é degradado antes de acumular. Mas basta beber muito para o álcool acumular.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2015 | 02h01

Aí ficamos bêbados. Horas mais tarde o que se acumula é o acetaldeído, e aí ficamos de ressaca. E finalmente, quando o acetaldeído se transforma em acetato, engordamos. Isso porque o acetato é usado por nosso corpo para produzir gordura. E para desgraça do homem moderno, o pileque se transforma nos pneuzinhos de gordura ou nas barrigas de chope. O que pode ser visto como uma desgraça estética pelo homem moderno era considerado por nossos ancestrais uma reserva de energia para um futuro incerto.

O que os biólogos se perguntam é quando surgiu nossa capacidade de degradar o álcool e o transformar em alimento. Afinal, nossos ancestrais não encontravam garrafas de cerveja penduradas em árvores nem se reuniam em bares espalhados pela savana africana.

Alguns cientistas acreditam que o álcool só passou a fazer parte de nossa dieta recentemente, uns 8 a 10 mil anos atrás, quando surgiu a agricultura. Não é difícil imaginar estoque de grãos úmidos fermentando nas primeiras cidades. Daí a nossos ancestrais apreciarem a alegria do pileque original foi rápido. Aprender a controlar o processo de fermentação pode ter levado gerações. O vinho e a cerveja foram a consequência natural.

Outros cientistas duvidam que 10 mil anos de convivência com o álcool tenham sido suficientes para desenvolvermos nossa sofisticada capacidade de degradar o álcool. Foram esses cientistas que decidiram investigar quando surgiu a capacidade de degradar o álcool. Para isso foram investigados 18 tipos de macacos. Eles procuraram em cada uma dessas espécies a enzima que no ser humano transforma álcool em acetaldeído (essa enzima se chama ADH4, Alcool Desidrogenase 4).

O que os cientistas descobriram é que essa enzima existe em todos os macacos. Mas em 15 dos 18 macacos ela é incapaz de transformar álcool em acetaldeído. Na verdade ela é tão ineficiente que só funciona quando quantidades enormes de álcool estão presentes. Quantidades tão grandes que esses animais morreriam de coma alcoólico antes de seus corpos começarem a degradar o álcool. Nesses animais, incluindo macacos como os saguis, o tamarindo, a macaca e o babuíno, essa enzima é utilizada para degradar moléculas muito maiores que existem nas frutas que eles comem.

Para surpresa dos cientistas somente os chipanzés, os gorilas e o bonobo compartilham com o ser humano a capacidade de transformar álcool em acetaldeído. Os cientistas foram capazes de descobrir qual a mudança que ocorreu na enzima ADH4 e a tornou capaz de degradar álcool. Essa mudança é idêntica nessas três espécies e no ser humano. Isso significa que muito provavelmente essa mudança ocorreu antes da separação das linhagens que deram origem aos chipanzés, bonobos, gorilas e seres humanos. Do ponto de vista filogenético, o gorila é o mais distante do ser humano. Sabemos que a linhagem filogenética que deu origem ao gorila se separou da linhagem que deu origem ao ser humano, ao chipanzé e ao bonobo 10 a 20 milhões de anos atrás. Foi nessa época distante que surgiu a capacidade de transformar álcool em acetaldeído

A conclusão dessa investigação é que muito antes de surgir o primeiro ser humano na face da Terra os nossos ancestrais distantes já eram capazes de transformar álcool em alimentos.

Mas, se nesse ambiente primitivo não existia álcool, qual a função dessa enzima? Foi nessa época, 10 a 20 milhões de anos atrás, que nossos parentes distantes começaram a viver parte do tempo no solo. Antes disso viviam nas árvores coletando frutas diretamente da árvore. Com essa mudança de comportamento, parte das frutas passou a ser coletada no solo. E, como sabemos, frutas coletadas no solo já estão maduras e muitas delas, contaminadas por fungos, começam a fermentar. Talvez tenha sido essa mutação que permitiu que esses macacos primitivos ingerissem frutas fermentadas colhidas no chão. Não somente esses macacos conseguiam transformar o álcool presente nas frutas em gordura, mas ficavam imunes dos efeitos tóxicos do álcool.

Pois é, quem diria, milhões de anos antes da descoberta do vinho já estávamos metabolicamente preparados para o primeiro pileque e a primeira ressaca.

É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: HOMINIDS ADAPTED TO METABOLIZE ETHANOL LONG BEFORE HUMAN-DIRECTED FERMENTATION. PROC. NAT. ACAD. SCI. USA DOI/10.1073/PNAS/1404167111 2014

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