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A morte anunciada

ANÁLISE: Marcelo Beraba, diretor da sucursal do Rio do 'Estado' - O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2014 | 02h 01

Desde junho, quando os conflitos entre PM e manifestantes mais radicais se tornaram corriqueiros, era possível prever que, mais dia menos dia, teríamos um cadáver. A morte de Santiago Andrade é o desfecho de uma tragédia que só poderia ter sido evitada se houvesse o mínimo de compreensão do jogo democrático por parte de uma fração dos manifestantes.

Todos que acompanhávamos as manifestações temíamos, na verdade, que se repetisse a tragédia do Calabouço, de março de 1968, quando o estudante Edson Luís foi assassinado pela PM. A morte desencadeou a onda de protestos e de resistências contra a ditadura militar.

Em várias ocasiões, a PM do Rio se mostrou despreparada para as tarefas de segurança e proteção. Presenciamos várias cenas de descontrole contra as provocações e incitamentos de parte dos manifestantes. Daí vinha o temor maior do surgimento de um novo mártir que incendiaria de vez um quadro já conturbado, como foi em 1968.

Mas as agressões verbais e físicas de manifestantes contra os repórteres também indicavam a iminência de um desfecho funesto. Vários profissionais foram agredidos de forma covarde. Os manifestantes que adotaram táticas Black Bloc e os incitados por organizações antidemocráticas miraram propositalmente jornalistas, e por pouco não houve linchamentos.

Andrade foi atingido na Central do Brasil, a menos de 3 km de onde era o Calabouço, o restaurante onde foi morto Edson Luís. Entre os episódios tivemos quase 50 anos de um árduo trabalho de construção de um sistema democrático ainda imperfeito, mas que funciona. A morte de Santiago mostra um profundo desprezo de seus algozes e dos que os apoiam pelo embate democrático.

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