Tiago Queiroz / Estadão
Tiago Queiroz / Estadão

‘A médica disse que eu tinha matado a minha filha’

Mãe acusada injustamente de colocar cocaína em mamadeira de bebê relata em livro, 10 anos depois, o drama da perda e dos dias na prisão

Edison Veiga, Enviado especial a Taubaté

29 Maio 2016 | 05h00

SÃO PAULO - “Olha o que você fez! Tá feliz?! Era isso que você queria? Você matou sua filha por overdose de cocaína!” Faz dez anos que a dona de casa Daniele Toledo do Prado ouviu tais palavras de uma médica - e não há um único dia em que ela não se lembre, sílaba a sílaba, dessa frase carregada de dor. As pungentes memórias da jovem mãe de Taubaté que foi injustamente presa, acusada de assassinar a filha de 1 ano e 3 meses, estão para sair no livro Tristeza em Pó

Na noite de 28 de outubro de 2006, um sábado, Daniele, então com 21 anos, tentou levar sua filha Victória para o Hospital Universitário de Taubaté, na época administrado pela Fundação Universitária de Saúde de Taubaté (Fust). A menina sofria de problemas de saúde, nunca diagnosticados com precisão, desde o nascimento. 

“A gravidez foi complicada e ela nasceu prematura, de 7 meses”, conta Daniele, em entrevista ao Estado. “Ela só veio para casa com 2 meses e meio de idade. Mas logo começou a ter febres convulsivas e a partir do sexto mês o quadro se agravou muito. Entre idas e vindas, até sua morte, foram oito vezes em que ela ficou internada na UTI.” Era uma rotina complicada. Victória recebia alta, passava dois ou três dias em casa e novamente era encaminhada para o Hospital Universitário.

Naquele sábado, entretanto, por uma estranha ordem administrativa, conforme o relato de Daniele, a instituição médica não aceitou a menina. “Então corri para o Hospital Municipal Infantil”, recorda-se. Passaram ali a noite. Sete da manhã de domingo, a médica informou à mãe que a garota estava quase em estado de coma – e febre, muita febre. “Quinze minutos depois, ela teve a primeira parada cardiorrespiratória”, conta. “Foi a última vez que a peguei no colo: para levá-la para a emergência.” Na terceira parada, Victória não resistiu.

“Eram 10h40 quando a médica me disse que eu tinha matado minha filha. Cinco minutos depois, recebi voz de prisão, em flagrante. Não me deixaram nem encostar na minha filha. Fui para a cadeia sem entender o que tinha acontecido. Não vivi o luto. Fiquei muitos anos ainda imaginando que minha filha pudesse estar viva”, diz.

A partir de um teste rápido no leite que escorria da boca de Victória, os policiais concluíram que havia indícios de cocaína, incriminando Daniele. No mesmo dia, parte da imprensa veiculava o caso, chamando-a de “o monstro da mamadeira”.

Espancamento. Sem saber direito se sua filha estava morta, Daniele enfrentou camburão, delegacia e cadeia pública. Enviada para Pindamonhangaba, deu entrada na cela por volta das 23h. “Uma carcereira me advertiu: não diga o motivo de sua prisão, para sua segurança”, lembra-se. Segundo ela, dividia espaço com outras 19 detentas. “Durante a madrugada, uma televisão ligada ali entregou para elas quem eu era”, diz. “Mandaram eu me ajoelhar. Elas davam murros e chutes. Em qualquer lugar do corpo que elas conseguissem acertar: cabeça, rosto, peito, barriga. Com a sola de um chinelo, martelaram toda uma caneta bic no meu ouvido. A caneta quebrou dentro de mim. Eu sentia o sangue escorrendo quente pela minha orelha.” Foram quarto horas de espancamento.

Desacordada, Daniele foi levada para o pronto-socorro de Pindamonhangaba. De lá, acabou transferida para a cadeia pública de Caçapava e, em seguida, para a penitenciária feminina de Tremembé.

“Foram 37 dias, mas parece que foram 37 anos. Na prisão, o tempo não passa. E eu tinha medo de não ver mais minha família, ficava em desespero por saber que eu não tinha feito nada de errado, isso tudo me deixava bastante revoltada”, afirma. Do espancamento, restam as sequelas. “Tive traumatismo intracraniano, fraturas na mandíbula, na escápula, na clavícula, perda total da audição e da visão do lado direito, mobilidade reduzida do lado direito e três coágulos cerebrais - que me obrigam a tomar medicação para evitar convulsões”, enumera.

Sua liberação só foi autorizada após laudo do Instituto de Criminalística constatar que não havia resquícios de cocaína no corpo da menina.  “O que deve ter dado falso positivo para o teste rápido foi a medicação que ela tomava por causa das convulsões”, acredita Daniele. “Por orientação médica, costumava misturar ao leite, para facilitar a ingestão.”

Inocentada judicialmente dois anos depois, Daniele acredita que um episódio ocorrido dias antes da morte de sua filha tenha feito com que o Hospital Universitário não a aceitasse. Ela relata que, em uma das noites em que passava na instituição com Victória internada, teria sido estuprada por um estudante do curso de Medicina.

Daniele move dois processos em que pede indenizações. Um, contra o Estado, por causa da injusta prisão e do espancamento. O outro, contra a Fust, por causa do episódio de violência sexual. 

Procurada pela reportagem, a Fust não atendeu nem retornou aos telefonemas. O Estado respondeu por meio de nota, enviada pela Secretaria de Segurança Pública. “A Polícia Civil de Taubaté esclarece que a prisão da mãe da criança foi solicitada à Justiça a partir da análise de provas disponíveis naquele momento. Após o Poder Judiciário decretar a prisão preventiva, foram apresentadas novas provas materiais, que motivaram a retificação do processo pela Polícia Civil e o pedido de soltura da mãe da criança”, pontua. “Na época, a Equipe Corregedora da Delegacia Seccional de Taubaté também realizou um Procedimento Administrativo para investigar a atuação dos policiais responsáveis pela carceragem de Pindamonhangaba. O processo foi arquivado, pois a Justiça entendeu que não havia provas que incriminassem o diretor da cadeia e os três carcereiros de plantão no dia em que houve a agressão.”

Hoje com 31 anos, Daniele segue morando em Taubaté. Divorciada, vive com seu outro filho, que tem 13 anos, e a aposentada Maria Teresa de Camargo, 59 anos, tia do pai de Victória, de quem acabou se aproximando muito quando a menina estava hospitalizada. “Acabamos nos tornando uma família”, define Daniele. “Um segundo de injustiça acabou com a vida dela”, lamenta Teresa.

“Tudo isso aconteceu comigo”, diz Daniele, logo no ínicio do livro. “Fico imaginando como seria se fosse com uma moça que não tem muitas informações, como uma dessas moças aqui da roçaa da região do Vale do Paraíba. É capaz de fazerem uma coisa dessas e ela ainda achar que estava errada. É também para essas moças que eu dedico este livro.”

Trechos do livro

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Fiz o pré-natal da Victória todo certinho, desde o comecinho. Meu atendimento foi na Casa da Mãe Taubateana. Na primeira consulta, me perguntaram: Já bebeu? Já fumou? Já usou droga? Eu falei a verdade Já. Maconha e cocaína. A informação ficou no meu prontuário médico. Mas já fazia mais de dois anos que eu tava limpa. Quando fi- quei grávida da primeira vez, enjoei até do cigarro. Só vol- tei a fumar Marlboro Light depois. Quando engravidei da Victória, enjoei do cigarro de novo. Hoje, fumo meio maço de Free por dia.
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O nome dela ficou Victória Maria. Victória eu escolhi pela luta dela pra viver. Maria era uma homenagem à mãe- zinha de Jesus, já que a avó paterna dela tinha feito uma promessa. Também fiz promessa pela saúde da minha filha. Fiquei um ano sem tomar refrigerante. Quando cumpri, fui descalça na procissão do Bom Jesus.
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Até hoje a gente não sabe do que a Victória morreu. Apareciam umas feridas na pele dela, umas bolinhas pare- cendo catapora, das pernas pra baixo. Aí ela tinha febre muito alta, crise convulsiva e depois entrava em coma. Os médicos deram pra ela um pré-diagnóstico de encefalite autoimune.
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