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A luta de 1932, o maior movimento armado do século 20

Antonio Penteado Mendonça *

09 Julho 2013 | 02h 06

Com três meses de duração e aproximadamente mil mortos, a Revolução de 1932 foi o maior movimento armado acontecido no Brasil durante o século 20. Se comparada com outros movimentos armados acontecidos no Brasil durante o século 19, seus números não impressionam. As baixas da Guerra dos Farrapos, de Canudos e, principalmente, da Guerra do Paraguai foram muito mais elevadas.

Se colocada em perspectiva com outros conflitos acontecidos fora do Brasil, toda a luta da Revolução de 1932 poderia se resumir a breves escaramuças. Durante os três meses de guerra não aconteceu nenhuma grande batalha. Nenhum movimento estratégico das tropas. Nenhuma ação tática capaz de alterar o rumo dos acontecimentos. As tropas federais simplesmente esmagaram a resistência paulista.

E o seu total de mil mortos perde impacto quando comparado com os quase 7 mil mortos na Batalha de Gettysburg, na Guerra Civil norte-americana, com os mortos nas batalhas de Verdun e do Somme, na 1.ª Grande Guerra, ou com os mortos em Stalingrado e no desembarque do Dia D na 2.ª Guerra.

Em outras palavras, a luta de 1932 deve ser vista dentro dos parâmetros reais para colocar uma revolução no Brasil daquela época no seu contexto histórico, tanto no que tange ao tamanho e condição de vida da população, como ao grau de desenvolvimento nacional. Em 1932 uma boa parte do interior do Estado de São Paulo ainda não estava sequer ocupada. Não havia estradas de rodagem ligando o País. Para ir de São Paulo a Belém o meio de transporte era o navio. A economia dependia basicamente do café e do açúcar. A industrialização era um movimento incipiente, reduzido aos estados de São Paulo e Rio. As comunicações eram precárias, feitas por telégrafo ou telefone operado por telefonistas. Não havia televisão, o rádio era o grande meio de comunicação de massa.

É neste cenário que, entre os meses de julho e outubro, se desenrola a campanha militar da Revolução de 1932. Para se entender a luta e seu desfecho é necessário analisar fatos anteriores a 9 de julho, data do início do movimento armado.

Desde a vitória da Revolução de 1930 a população paulista estava descontente com os rumos da política nacional. Tratado como inimigo vencido, o governo do Estado de São Paulo foi entregue a aliados de Getúlio Vargas que não tinham familiaridade com a vida, o desenvolvimento econômico e as relações sociais da população. O resultado foi uma série de conflitos e o comprometimento do desenvolvimento estadual, brecado por ações implementadas para quebrar a pujança paulista.

A reação foi rápida, tanto no nível político, como no campo social. Os paulistas passaram a não aceitar a intromissão de gente estranha em suas vidas e a conspirar contra o governo de Getúlio Vargas, transformado em ditador.

É fácil julgar os erros de um movimento 80 anos depois dele acontecer. O duro é fazer a leitura e tomar as decisões corretas na hora em que as coisas acontecem. Portanto, sem desmerecer os líderes paulistas, é preciso elencar os equívocos e mesmo a inabilidade política e diplomática que resultaram no isolamento do Estado ao longo de todo o conflito. O primeiro equívoco foi considerar a aliança com os estados do Rio Grande do Sul e Minas como fato consumado e os três marchariam juntos para derrubar Getúlio Vargas. O segundo foi a inabilidade diplomática que resultou no não reconhecimento do "estado de beligerância" por parte das grandes nações. Também foi um equívoco incluir a destituição do general Bertoldo Klinger, do comando de Mato Grosso, entre as razões para iniciar a luta. Como foi um erro permitir que Getúlio Vargas desarmasse o Estado nos meses anteriores ao conflito.

O general Klinger, sabendo da inclusão de sua destituição entre os motivos para o início da revolução, enviou uma carta desaforada para o ministro da Guerra, que o demitiu. Honrando o acordado com Minas Gerais e o Rio Grande do Sul, São Paulo se levantou em armas, no que não foi acompanhado pelos parceiros. Mal armado, o Estado, em função do não reconhecimento do "estado de beligerância", não conseguiu comprar os equipamentos necessários para a luta no mercado internacional.

Neste cenário, havia uma única chance de vitória para os paulistas: um avanço rápido e direto contra o Rio de Janeiro, então capital federal. Se isso acontecesse, as tropas do Exército lá aquarteladas se levantariam e, juntamente com os paulistas, deporiam Getúlio Vargas.

No dia 9 de julho de 1932, não havia nada entre São Paulo e o Rio de Janeiro capaz de deter o avanço dos revolucionários. Quando a vitória já podia ser considerada como provável, o comandante das tropas paulistas, coronel Euclides Figueiredo, ao chegar na divisa entre os dois Estados ordenou que o exército parasse para aguardar a chegada e a decisão dos dois comandantes do movimento, os generais Isidoro Dias Lopes e Bertoldo Klinger. A partir daí, a iniciativa das ações passou para o governo federal e São Paulo, esmagado pelo peso do País mobilizado contra ele, três meses depois depôs suas poucas armas, encerrando a Revolução de 1932.

A leitura dos livros escritos pelos paulistas que participaram da luta mostra uma guerra como todas as guerras. Suja, feia, malcheirosa, com piolhos, ratos, sangue, gritos dos feridos, corpos mutilados e soldados mortos. Ela aconteceu durante um inverno úmido, que castigou ainda mais as tropas paulistas, mal equipadas para enfrentar o tempo inclemente e mal armadas para conter as tropas federais.

Boa parte das forças de São Paulo era composta por voluntários sem qualquer treinamento militar, sob o comando de oficiais do exército e da Força Pública. Um elevado número desses comandantes não estava preparado para a guerra e não tinha noção das regras de combate, outros se mostraram covardes e outros simplesmente não tinham qualquer simpatia pelo movimento.

As narrativas, principalmente sobre a frente sul, mostram manobras equivocadas, retiradas sem sentido e o abandono do campo de batalha pelos soldados profissionais que deveriam dar o exemplo, deixando os voluntários sem comando diante do inimigo. Neste setor, bem como em todos os outros, aconteceram atos de bravura e heroísmo, que merecem todas as homenagens, mas que, evidentemente, não foram suficientes para deter o avanço das tropas federais.

Nas outras frentes, os paulistas se saem melhor, mas, da mesma forma, não conseguem impedir o avanço inexorável dos soldados profissionais do exército e das polícias estaduais, jagunços e cangaceiros enviados contra eles. Ao longo dos três meses de luta, os paulistas só se defenderam. No final, estavam completamente vencidos. O armistício e o fim dos combates no começo de outubro era o único meio de impedir que a invasão maciça do Estado de São Paulo pelas tropas federais se transformasse em vingança e resultasse num morticínio inútil e numa enorme carga de sofrimento físico para a população civil. Por isso, ainda que doa não ter um bode expiatório para culpar pela derrota, a paz solicitada pelo comando da Força Pública não pode ser questionada.

* ANTONIO PENTEADO MENDONÇA É PRESIDENTE DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS E COMENTARISTA DA 'RÁDIO ESTADÃO'.