A hora do 'rolezinho' no teatro

A hora do 'rolezinho' no teatro

Projeto reúne MCs na zona leste da capital; parte do grupo participou do movimento que tomou shoppings no fim de 2013

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2016 | 04h30

SÃO PAULO - “O estudo é meu lema. O trabalho, obrigação. Esse funk é sem problema, sem discórdia e palavrão. Sou o MC Novinho, o futuro da nação”, canta o garoto Rowan Fernando Carvalho das Graças, de 9 anos, o MC Novinho da ZL (zona leste). Entre as espectadoras, está sua mãe, a cabeleireira Aline Barbosa, de 28 anos, e a avó Silvânia Carvalho, de 48. Não é baile funk nem “fluxo”: o garoto é um dos primeiros a se apresentar em um teatro da capital, em um projeto que une MCs, o Funkeiros no Teatro. 

“Novinho” se apaixonou pelo ritmo musical depois de o pai, que também canta funk, tê-lo levado a um baile na região. Mas o passeio durou pouco: assim que a mãe ficou sabendo, proibiu o garoto de voltar ao local. “Ele foi escondido, não deixo de jeito nenhum”, disse. Mas, com a insistência do filho, ela começou a procurar alternativas. Até que descobriu o evento que estava sendo organizado. "Queria que ele fosse pagodeiro, mas o importante é ser feliz. Se é isso que ele quer, vamos em busca da felicidade”, brincou. 

Sem palavrão ou bebida. No palco não vale falar palavrão. Também não há bebida alcoólica. No lugar da “ostentação” de carros de luxo e cordões de ouro, conhecida em músicas tradicionais dos funkeiros, são ouvidas histórias da vivência dos jovens MCs e seus sonhos de vida. “Sou apenas um menino, um bom filho sei que sou. O meu sonho nesta vida, um futuro promissor”, rima o garoto em um dos improvisos.

O projeto teve início no mês passado, quando um grupo de artistas da zona leste viu que estava ficando cada vez mais difícil conseguir espaço nas casas de shows. Parte dos jovens participou dos “rolezinhos” ocorridos em shoppings centers no fim de 2013 – encontros em que cantavam funk e, em alguns casos, consumiam bebidas alcoólicas. Mas também há espaço para novos talentos.

“Está mais burocrático e difícil conseguir espaço. Tem muito artista bom nas comunidades que não têm um local para se apresentar”, diz Jonathan David, o MC Chaveirinho, artista já conhecido entre os fãs de funk da periferia. Chaveirinho foi um dos organizadores dos “rolezinhos” em 2013. Um dos encontros resultou em confusão à época e houve até liminar judicial impedindo que acontecessem nos centros de compras. Em um dos episódios, no Shopping Metrô Itaquera, houve um arrastão e a Polícia Militar precisou intervir. 

O MC diz que quer levar um projeto à Prefeitura para que novas edições do evento ocorram em outros teatros da cidade. “Tem muita gente do bairro que veio para o show e não sabia que esse teatro existia. É uma forma de divulgar e fazer com que ocupem esse espaço público”, diz. 

O espaço não é exclusivo para funkeiros: na primeira apresentação, no dia 26 de agosto, teve de poesia a sertanejo. “Se tiver artista circense que mora na quebrada, ele pode vir se apresentar e mostrar seu malabarismo”, diz Chaveirinho. “A cultura da periferia é muito grande. Se a gente não abrir espaço para a gente mesmo, quem vai?”

Preconceito. Além de garantir um espaço, os MCs dizem que a proposta também quer quebrar preconceitos com o estilo musical. “É diferente. Uma mãe não vai ao baile funk. Já no teatro é como se fosse uma peça, ela tem onde se sentar e ver, ficar assistindo. Não dá para levar a mãe na favela, o local não agrada”, diz a cantora Rafaela Pellegrini, de 22 anos, moradora de Cangaíba, na zona leste. 

“Ninguém vê funkeiro no teatro. Um MC se apresentando em cima do palco, onde qualquer um pode assistir, é uma experiência incrível”, afirma ela. A jovem conta que, embora cante desde 2014, seu padrasto, que tem deficiência física, não podia assisti-la. “Ele viu meu show pela primeira vez aqui. Não dava para ir ao baile de muleta”, conta.

Caíque Silva, de 24 anos, o DJ Kah, morador do bairro Engenheiro Goulart, também na zona leste, diz que a apresentação trouxe a oportunidade de levar a família e os amigos. “Conseguimos alcançar até famílias evangélicas, que sempre têm preconceito com o funk. Viram que é um funk consciente, o feedback foi positivo. Eu mesmo trouxe minha mulher e minha filha, que tem 4 anos.”

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