SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO
SÉRGIO CASTRO/ESTADÃO

A história da escola ocupada que fez 93 ficarem abertas

Unidade que recebe o nome do bandeirante Fernão Dias Paes, na zona oeste da capital, virou símbolo da resistência ao Palácio dos Bandeirantes

Felipe Resk, Rafael Italiani, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2015 | 02h04

Enfrentando protestos nas ruas e queda de popularidade, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) convocaria a imprensa às pressas, anteontem, para anunciar o recuo na reorganização da rede de ensino. A crise havia sido deflagrada 25 dias antes, quando 150 alunos ocuparam a primeira escola na capital: a Fernão Dias Paes, em Pinheiros. Por ironia, a unidade, que recebe o nome de bandeirante, se tornaria símbolo da resistência ao Palácio dos Bandeirantes.

Antes das ocupações, os alunos fizeram passeatas contra o fechamento de 93 escolas, mas os atos não surtiram efeito. O cenário começou a mudar na madrugada de 10 de novembro, quando os manifestantes tomaram a Fernão Dias e o colégio foi cercado pela Polícia Militar. O isolamento só foi desfeito quatro dias depois - e o número de unidades ocupadas passou a se multiplicar. Também ocorreu o fechamento de vias importantes em São Paulo, combatido a bombas pela PM.

Justificativa. “Nossa luta é por outro tipo educação, com mais participação dos alunos. Temos de ser contra uma medida autoritária como essa reorganização”, diz o estudante João Pedro Constantino, de 19 anos, que faz o 3.º ano do ensino médio na Fernão Dias e, a contar da ocupação, só dormiu em casa uma vez para apanhar uma troca de roupas. Em 2014, foi reprovado por excesso de faltas no mesmo colégio. “Quando a gente deseja mudança de verdade, não quer sair da escola.”

Para limpar ou cozinhar, os alunos se dividem em comissões. O grupo responsável por vigiar os portões e impedir a entrada de estranhos é chamado internamente de “milicos”. A maior parte dos ocupantes tem entre 15 e 18 anos e é de estudantes da Fernão Dias. Há alunos de outras escolas. Eles recebem apoio de movimentos sociais, mas se declaram uma organização “autônoma” e “horizontal”.

Os ambientes são mantidos limpos e não há sinais de depredação na escola. As decisões são tomadas em assembleias - algumas delas chegam a durar três horas. No “tempo livre”, os ocupantes participam de manifestações nas ruas ou de atividades como aulas públicas e saraus.

Professores voluntários dão aulas na Fernão Dias com enfoques distintos dos que estão na grade curricular do ensino médio. Os assuntos vão de história dos movimentos secundaristas no Brasil a teatro dos oprimidos e política. “Vamos perguntar o porquê em sala de aula: por que a gente tem de sentar e ficar 50 minutos para ver uma coisa que pode ser dita de um jeito de diferente? Vamos questionar as imposições da direção. Não vamos ficar quietos, literalmente”, diz Laura Bueno, de 15 anos.

No dia do recuo do governo, muitos manifestantes da Fernão Dias participavam do protesto na Avenida Paulista, no centro. Os que ficaram se acotovelaram em frente à única televisão do colégio, por onde ouviram o governador afirmar que iria “suspender” o fechamento das escolas - e não “revogar”, como os alunos esperavam. Inicialmente, comemoraram. Depois, cismariam que se tratava de uma “manobra” e resolveram continuar com a ocupação.

Pouco identificados com os bandeirantes, os alunos resolveram cobrir com um saco preto a Estátua de Fernão Dias Paes na frente da escola. “Ele era matador de índios. Essa escola não pode ter mais esse nome”, comentou uma aluna. Foi quando outro estudante teve a ideia de trocar o nome do colégio pelo da rua da unidade, a Pedroso de Morais. O grupo resolveu fazer uma pesquisa no Google. Resultado: bandeirante. “Também era matador de índios. Sem chance.” 

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