A expectativa de que a catástrofe só venha depois do mandato

Quando permitem ou até estimulam a ocupação irregular de áreas de risco, como encostas, alguns políticos apostam direta ou indiretamente que seus mandatos ou suas carreiras chegarão ao fim antes que as comunidades pobres virem palco de tragédias como a vivida no Grande Rio nesta semana. Com frequência, vencem a parada: colhem os votos das comunidades antes ou sem que o pior aconteça e até criam ou incorporam eleitorados cativos, que podem garantir reeleições sucessivas, na esperança de que nada de ruim ocorra.

Análise: Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2010 | 00h00

Para os mais pobres, as comunidades precárias são sinônimo de renda, porque ficam próximas dos empregos, em cidades de geografia complicada e com periferias tornadas ainda mais distantes pela falta de transportes de massa de qualidade, a preços acessíveis.

Para alguns políticos, as ocupações irregulares são voto, pois a intermediação das demandas de seus moradores resulta em oportunidades de estreitar laços com grupos sociais que são celeiros de potenciais eleitores. O sistema brasileiro, de lista aberta, dispersa votação, dando vantagem a quem tem eleitorado concentrado social e/ou geograficamente. Tudo isso é potencializado pela pobreza da sociedade fluminense.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2009, 35,3% dos moradores da região metropolitana do Rio (pouco mais de um em cada três) tinham em 2008 renda familiar per capita mensal de até 1 salário mínimo, 19,3% ganhavam mais de três salários e só 10,9%, mais de cinco. Ou seja, os muito pobres formam uma faixa grande do eleitorado, com peso considerável nas eleições, reforçado pela falta de políticas consistentes para o setor de habitação.

Assim se cria um ambiente difícil para a intervenção do poder público, com a sociedade dividida entre um setor da classe média defensor da remoção em massa e moradores das comunidades que resistem a qualquer política que as lembre. Nesta semana, os governantes voltaram a acenar com a possibilidade de retirar famílias de áreas que estiverem em risco.

Nesse cenário, alguns políticos apoiam as comunidades indistintamente, sem muita atenção a detalhes técnicos ? por exemplo, se há risco de desabamento ? e tratando o reassentamento, mesmo que para locais próximos dos originais, como tabus. De novo, dobram suas apostas, sempre esperando (rezando?) que mais uma vez a tragédia não venha a lhes ceifar o eleitorado ? nem a carreira.

É JORNALISTA DO "ESTADO"

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