A dor da mãe de uma vítima do serial killer

Valdirene Cunha diz que não deseja morte de assassino porque isso para ele seria lucro

Vannildo Mendes, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2010 | 00h00

Na definição do compositor Chico Buarque, saudade "é arrumar o quarto do filho que já morreu". A analista de contas Valdirene Fernandes da Cunha, de 37 anos, não conhece a letra, mas viveu na sexta a dor indescritível de recolher os objetos de um ente querido que se foi. Filha de pedreiro, migrante do Maranhão quando tinha 5 anos, Valdirene faz parte de um grupo de seis mulheres que comoveram o País na tentativa de vencer a leniência do poder público - da polícia ao Judiciário, passando pelo Ministério Público - até a elucidação do desaparecimento dos filhos, brutalmente assassinados pelo psicopata Adimar Jesus da Silva.

Condenado em 2005 por violência sexual contra duas crianças, Adimar foi posto na rua pela Justiça em 23 de dezembro de 2009, após cumprir dois sextos da pena, contra laudo de três psicólogas que o definiam como psicopata com "sinais de sadismo" e de "perversão sexual", inapto à convivência social. Uma semana depois, Adimar começou a matar e abusar dos rapazes, com idades entre 13 e 19 anos. Foram seis mortes entre 30 de dezembro e 22 de janeiro.

Uma semana após mudar de casa, com a certeza de que o filho não voltaria mais, Valdirene recolheu anteontem, na residência antiga, alguns pertences de Flávio Augusto Fernandes dos Santos. Brinco na orelha, 1,70 metro de altura, 14 anos, Flávio era torcedor do Flamengo e admirava o ídolo Adriano. Ele teve a vida interrompida a pauladas e golpes de enxadão e martelo. Valdirene trabalha no Hospital das Clínicas (HCB), no setor de radiologia. Solidário, o hospital dispensou a funcionária da frequência nos últimos meses de angústia à procura do filho.

Em seu novo endereço, tão modesto como o anterior, no bairro Estrela Dalva, onde residiam as vítimas e o maníaco, ela deu ao Estado um comovente depoimento sobre os momentos de angústia desde o desaparecimento do filho, a quinta vítima de Adimar, até a localização do corpo. As famílias planejam um enterro coletivo, quando os corpos forem liberados, dentro de dez dias. "Acabou o sonho, acabou a alegria. Do meu filho o que restou foi a camiseta do Flamengo, que ele tanto amava, sua chuteira de goleiro e uma saudade sem fim."

O desaparecimento

"Era 18 de janeiro, uma segunda-feira. Após tomar café, Flávio brincou com a irmã (Ana Paula) e saiu às 10 horas, de short, camiseta e chinelo de dedo. Avisou que iria consertar o pneu da bicicleta e voltaria logo. Às 13h30, Ana Paula me ligou, comunicando que ele não voltou para almoçar. Liguei para o trabalho dele e me disseram que ele faltou. Senti um buraco se abrir sob meus pés e minha vida parou naquele momento. Senti que algo ruim havia acontecido com meu filho, um garoto responsável que nunca sequer atrasou no trabalho. Na véspera, eu já havia tido um presságio, porque ele demorou demais na casa da minha irmã. Ela era uma segunda mãe para ele e eu acho que a demora foi uma espécie de despedida. Quando ele chegou, eu o adverti pela demora e o abracei com ternura. Não sabia que eram os meus últimos momentos com meu filho. Ah! Meu Deus, se eu soubesse (emociona-se)! O que a gente espera do nosso filho é que seja homem de bem e vencedor. Mas aí vem um psicopata, solto pela irresponsabilidade das autoridades e interrompe o ciclo da vida. Suponho que ele foi levado à força por mais de um e assassinado com crueldade."

Duas vezes mortos

"Esse psicopata está inventando histórias de forma maquiavélica para denegrir a imagem das crianças e tentar diminuir sua culpa. Acusa-os de serem viciados e de homossexualismo. É como matar duas vezes. Meu filho era normal, tinha amigos da mesma faixa etária e namorava meninas. Era um rapaz adorável e sem vícios. Gostava de bola, bicicleta, pipa e brincar com os amigos, ao alcance dos olhos da família. Ele tinha emprego e o sustento garantido pela mãe, além da ajuda dos tios para o que precisasse. Vaidoso e inteligente, ele não aceitaria proposta de um ignorante para descarregar caminhão ou levar saco de areia, como ele diz. Muito menos para os atos horrorosos que ele alega, como usar droga. Eu conheço meu filho. Até onde sei, os demais também namoravam meninas e não tinham problemas com drogas. A cada vez, ele (Adimar) conta uma história diferente e confusa.

Mãe coruja

"Ele era um moreno lindo, a sensação da escola. Com sua liderança, tudo girava em torno dele. Gostava de loiras. As moças o chamavam de "diamante negro", "meu pé de moleque" e essas coisas. Um sucesso total. Eu dizia que ele precisava ter uma profissão, fazer faculdade e ele concordou, mas pretendia primeiro fazer concurso para bancar os próprios estudos."

O futuro

"Sonhava em ver meu filho homem na sua plenitude, casado, com filhos, trabalhador e honrado. Insistia para que ele fosse para o Exército. Mas ele rejeitava a ideia. Agora é preciso seguir em frente. Estamos criando uma ONG para atuar com crianças e jovens desaparecidos. O movimento das mães de Luziânia vai prosseguir para manter uma ação vigilante junto ao poder público, evitar que monstros como esse sejam soltos e ajudar famílias de desaparecidos. Queremos uma revolução no sistema penal e, se for preciso, até a prisão perpétua para esse tipo de criminoso. Vamos acompanhar a trajetória desse animal por toda a vida. Ele tem de pagar e jamais pode conviver em sociedade. Quantas famílias terão de chorar com tantos psicopatas soltos nas ruas. Não queremos que outras mães sofram tamanha dor."

Sonhos enterrados

"Sonhava em ser jogador de futebol contra minha vontade. Era goleiro e chegou a treinar numa escolinha do Flamengo. Eu insistia que ele desse prioridade aos estudos, aos 18 servisse ao Exército para se tornar um homem completo e depois fizesse um concurso para bancar faculdade. Ele faria 15 anos no próximo dia 7 de julho. Haveria festa. Planejamos passar as próximas férias em Maceió. Mais por minha insistência, porque ele não conhecia o mar, mas não fazia questão. O sonho dele era morar no apartamento atual, que fica em frente ao ginásio de esportes e perto da igreja que a gente frequenta. Mas não deu tempo. Fechei a casa onde morava (no loteamento Estrela Dalva 7, perto das demais vítimas) para apagar as lembranças tristes e vim morar onde ele queria. Hoje eu durmo na cama do meu filho para compensar a imensa dor da perda. Vai ser difícil a vida sem ele."

Lembranças

"Era um menino feliz, divertido, que contagiava todos em sua volta. Era torcedor roxo do Flamengo e admirava o Adriano (atacante do clube). Estudar não era o seu forte e eu tinha de ficar em cima. Chegou a perder um ano. Mas era trabalhador e extremamente participativo nas tarefas de casa. Cozinhava bem, passava as próprias roupas e cuidava com esmero dos tênis. Lavar pratos ele fazia a contragosto. Um tanto atrapalhado, quebrava muitos copos e vivia entupindo a pia. Sua especialidade favorita era bolo de cenoura com chocolate. Ficava delicioso, mas emporcalhava o chão, o fogão... (diverte-se ao lembrar) Não fazia feio também no bife com batata. Era vaidoso e gostava de andar alinhado. Começou a usar brinco contra a minha vontade. Agora acabou o sonho, acabou a alegria, acabou tudo. Do meu filho restou a camisa do Flamengo, que ele tanto amava, sua chuteira de goleiro e uma saudade sem fim."

Mãe possessiva

"Eu queria dar o melhor para os meus filhos e não media esforços. Mas sempre coloquei limites e não dava trégua quanto aos estudos, a disciplina e as tarefas domésticas. Quando eu ralhava, ele dizia: larga do meu pé, mãe, não sou criança, para de passar vexa! E eu respondia: esqueça, enquanto eu viver, vou estar no seu pé, porque você vai ser sempre o meu bebê."

O maníaco

"Ele não tem Deus no coração, não é gente, é só uma casca. É como um animal que mata por instinto para se alimentar. Não desejo sua morte porque morrer é lucro para ele. Há muitas perguntas sem respostas. Interessa saber como ele atraía os meninos, quem está por trás das suas atrocidades e de quem recebeu ajuda para assassinar brutalmente jovens fortes e saudáveis, arrastá-los e enterrá-los sem ser visto num ritmo absurdo de duas vítimas por semana. Ele tem de estar vivo para começar a sofrer aqui o tormento eterno por todo o mal que fez. O inferno dele tem de começar aqui. Se ele se arrepender de coração, a gente tem de perdoar, pois nossa vida não pode seguir em função do ódio, mas ele precisa pagar pelo que fez e ficar longe do convívio social."

A baixada de Brasília

"Vivemos numa região onde prospera a violência. As autoridades precisam olhar para essa população do entorno. O Estado é o maior responsável pela tragédia que afetou a mim e a todas as mães. Vamos cobrar mais policiamento, infraestrutura e escolas, mais agentes de segurança e uma delegacia especializada em casos de desaparecimento de crianças e jovens, um problema rotineiro no entorno. Só assim nossos meninos não terão morrido em vão."

Conselho às mães

"Poderia dizer o mais simples, que cada uma redobre os cuidados e vigie os seus filhos. Mas o problema é mais profundo. Nós, que moramos em periferia pobre, somos mais expostos, mas ninguém está livre de pedófilos e psicopatas. O pedófilo se mascara de professor, padre, médico e ataca também os filhos da classe média e alta. Os poderosos também correm risco e deveriam olhar com mais atenção para a questão. Espero que a Justiça não cometa o mesmo erro soltando-o de novo. Não existe ex-estuprador. A tendência é que esse monstro fique cada vez pior, uma vez na prisão, sem tratamento. Desta vez, ele matou seis. Da próxima vez que for solto, quantos matará? Não basta ter bom comportamento na cadeia para soltar pedófilos psicopatas. Na prisão não tem criança para ser estuprada. Pagamos impostos, somos cidadãos e temos direitos."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.