A DMZ do paralelo 38

É o mais improvável dos projetos de preservação de uma reserva natural. Uma área de 1 mil quilômetros quadrados onde nenhum ser humano ousa entrar, sob risco de ser morto. Protegidas por milhares de soldados armados, dezenas de espécies já extintas no resto do planeta vivem nesta região. E o único risco desta fantástica reserva ecológica desaparecer é a Coreia do Norte fazer as pazes com a Coreia do Sul. Prevendo que um dia a paz prevalecerá, um grupo de cientistas está tentando transformar a zona desmilitarizada do paralelo 38 em um parque internacional.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

19 Abril 2014 | 02h03

Edward Wilson, fundador da Sociobiologia, disse certa vez que o Homo sapiens era a única espécie poética. E foi com base nesta observação que a Academia dos Poetas Americanos o convidou para uma conversa com Robert Hass, um dos mais aclamados poetas americanos. Essa conversa foi publicada em um pequeno e precioso livro. Foi no meio desta conversa que ambos se referiram ao projeto de preservação na DMZ do paralelo 38.

Em 27 de julho de 1953, foi assinado o armistício entre as duas Coreias. Naquela data, os exércitos dos dois países se enfrentavam ao longo de uma linha horizontal que atravessava a Península da Coreia. Os dois lados concordaram que cada um deveria recuar dois quilômetros, criando uma zona desmilitarizada separando os dois exércitos. E, desde então, este corredor de 4 quilômetros de largura e 250 quilômetros de comprimento, que corre ao longo do paralelo 38 norte, se tornou território proibido para seres humanos. Cercas foram construídas e quase um milhão de soldados, divididos entre os dois países, defendem a área desmilitarizada. Faz quase 60 anos que a DMZ está protegida da influência humana.

Esta área foi ocupada por seres humanos durante quase 5 mil anos, até ser desocupada, em 1953. Desde então, aparentemente sem medo das milhares de minas terrestres, plantas e animais recolonizaram a área. Dezenas de espécies de plantas, originais da Península da Coreia, agora são exclusivamente encontradas na DMZ. Duas espécies de pássaros migratórios só sobrevivem porque podem descansar de maneira segura na DMZ. Os tigres coreanos, o leopardo de Amur e o urso preto asiático reapareceram na DMZ, hoje uma das reservas mais preservadas da zona temperada.

A reserva depende desta guerra sublimada. Se o conflito acabar, os milhares de soldados que protegem a DMZ serão removidos, e a área será novamente ocupada pelo ser humano. Neste dia, quando os tigres asiáticos construírem suas fábricas na fronteira, o tigre coreano vai desaparecer.

Para que esta região continue como uma reserva natural, um grupo de cientistas está se mobilizando para transformar a DMZ em patrimônio da humanidade reconhecido pela ONU. Até agora, não tiveram sucesso. A Coreia do Sul já fez um pedido para a Unesco, mas a Coreia do Norte bloqueou. O parque tem de ser formalizado antes que os dois países façam as pazes.

Se tudo der certo, os coreanos poderão se orgulhar de terem transformado uma das áreas mais militarizadas do mundo em um patrimônio mundial. Provavelmente, o parque da DMZ do paralelo 38 será a reserva com a história mais improvável do planeta. Se o Homo sapiens conseguir essa proeza, talvez eu acredite que somos uma espécie poética e não uma espécie com alguns poetas.

MAIS INFORMAÇÕES: THE POETIC SPECIES. A CONVERSATION WITH EDWARD O. WILSON AND ROBERT HASS. BELLEVUE LITERARY PRESS 2014

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