A cada 2 dias, 7 policiais feridos são afastados do trabalho no Estado de SP

A cada 2 dias, 7 policiais feridos são afastados do trabalho no Estado de SP

Afastamento dura, em média, de 30 a 90 dias. Dados das Juntas Médicas da Polícia Militar apontam que 249 agentes ficaram incapacitados entre 2015 e este ano, em decorrência de acidentes e ferimentos com armas de fogo e brancas

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Anderson Lino do Nascimento fez sinal para o policial na guarita. Estava voltando ao quartel após sete meses. Um acidente de moto a caminho do trabalho o obrigou a passar por duas cirurgias e mais de uma centena de sessões de fisioterapia, provocando seu afastamento. Acidentes com veículos – carros e motos – e atropelamento estão entre as principais causas de licenças médicas concedidas pela Polícia Militar aos seus agentes. Tiros e facadas também provocam dezenas de vítimas. De janeiro de 2015 a maio deste ano, a cada dois dias a corporação registrou o afastamento de sete policiais feridos no Estado de São Paulo, de folga ou no serviço.

A violência enfrentada pelos policiais militares fez com que a Diretoria de Saúde da PM mudasse o treinamento de médicos e dos policiais de batalhões e de unidades de elite. Eles passaram a receber instrução para atender casos de traumas causados por armas de guerra (PHTLS, na sigla em inglês). “Ele precisa saber fazer um torniquete corretamente em um ou dois minutos para controlar a hemorragia”, afirma o tenente-coronel-médico Cezar Angelo Galletti Junior, da diretoria.

A ideia é que toda equipe tenha pelo menos um policial com um torniquete no uniforme para salvar vidas. “Nosso objetivo é devolver o homem no fim da carreira nas mesmas condições de quando ingressou na corporação”, diz o coronel-médico Roberto Rodrigues Junior, diretor de Saúde da PM. “O policial chega cada vez mais cedo à ocorrência e os bandidos estão com armamento cada vez mais pesado.”

De acordo com dados das Juntas Médicas da PM, 249 policiais ficaram incapacitados para o trabalho de 2015 a junho de 2017 – são 7,9% do total de 3.131 homens que obtiveram licenças médicas, principalmente em razão de acidentes, ferimentos com armas de fogo e armas brancas. “Uma minoria é reformada, normalmente os pacientes da fisioterapia neurológica”, conta a tenente-coronel Soraya Corrêa Alvarez, que chefiava o Centro de Reabilitação (CR) da corporação. 

Além de manter hospital próprio, a PM tem o CR para tratar desses policiais feridos. Em 2016, o centro fez 57,1 mil atendimentos, quase a mesma quantidade do ano anterior (56,3 mil). A fisioterapia ortopédica foi responsável por 17 mil desses atendimentos no ano passado e o serviço de condicionamento físico, por 11 mil, ocupando o primeiro e o segundo lugares dos atendimentos mais procurados.

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É no CR que Lino fez seu tratamento – no seu caso, foram exercícios da fisioterapia ortopédica. O mesmo ocorreu com o sargento Wagner Leite da Silva. Ambos voltaram ao serviço. Pelo centro também passaram a soldado Adriana da Silva Andrade e o soldado Gilson Ribeiro. Baleados por bandidos, Ribeiro e Adriana são atendidos pela fisioterapia neurológica. Ribeiro teve de ser reformado e Adriana deve seguir o mesmo caminho. “Muitos dos policiais chegam com lesões que não permitem que voltem ao serviço. É comum um abalo psicológico. Então, é preciso tratar o policial de forma multidisciplinar”, diz a tenente-coronel Soraya. 

Média. Os afastamentos por acidentes deixaram os policiais de 30 a 90 dias longe do trabalho, em média. Já entre os que foram vítimas de disparos de armas de fogo, a média de afastamento é de 45 dias. Os casos neurológicos são tratamentos longos.

“Invariavelmente com esses pacientes cuidamos do luto”, diz Soraya. Ela explica que “no luto” em questão há “perdas de capacidades e de possibilidades”. “Os policiais militares têm o treinamento voltado para a resolução de problemas.” Soraya conta que, então, o PM passa a se ver como “o problema”, porque deixou de ter autonomia nas atividades diárias, passando a depender de alguém. “Isso é muito complicado para o policial administrar.” 

Baleado em roubo

 O soldado Wagner Renato dos Santos viu o casal surgir do nada. Ainda tentou fechar a porta do carro, mas o homem já estava ao seu lado. “Aí, boy, se você tentar ir embora, a gente vai arrebentar você na bala.” Era domingo, 5 de fevereiro de 2007. Instantes depois parou o Uno. Havia mais quatro bandidos. Fizeram uma meia-lua em torno de Santos. “Dá o dinheiro, dá o dinheiro”, gritavam. “Não tenho”, respondeu o soldado. “Tem que eu ‘tô’ ligado. Se eu revistar você e achar, eu vou te matar”, disse um dos ladrões.

Santos apanhou a chave do carro e os R$ 400 em um bolso. Entregou tudo com a carteira, os papéis do carro e documentos pessoais, como a identificação funcional. “Tem mais que eu sei. Põe a mão na cabeça, senão eu vou te arrebentar.” Santos obedeceu, enquanto três dos bandidos voltavam para o Uno e outros entravam em seu carro. O ladrão apalpou, apalpou e só parou quando um dos comparsas chamou: “Ô, Joe, tira a mão do cara, deixa ele em paz, ele já deu tudo o que tem. ‘Vamo’ embora”. No carro, um dos assaltantes vasculhou a carteira. “Fica a pé aí seu vacilão, seu otário”, gritou a mulher do grupo. Foi quando acharam o documento de PM de Santos. 

O desfecho foi rápido. “Ele é polícia!” E o primeiro disparo acertou a cabeça da vítima. O soldado caiu, sacou, revidou e com a perna tentou impedir os bandidos de abrirem a porta do carro. Choveu bala de todo lado. Sem perceber que fora atingido, o soldado atravessou a rua atrás de socorro. Os bandidos fugiram.

Alguns metros adiante, um homem apareceu em um portão. “Senhor, em nome de Jesus, chama a polícia para mim, sou policial.” O homem respondeu: “Calma, filho, minha mulher já foi chamar a polícia, calma que você tomou quatro, cinco tiros na cabeça.” Santos não acreditou e se olhou no retrovisor de um carro.

“Meu cérebro estava saindo para fora. Sentei atrás desse carro, e fiquei chorando. Meu osso da cabeça estava todo esfacelado.” Levado a um hospital, foi operado duas vezes. Perdeu 33% da massa encefálica. Os médicos lhe davam poucas chances de sobreviver. Um dia, levantou e voltou a ver e falar. Depois disso ficou conhecido como Milagre. Afastado do serviço, acabou reformado.

Atropelado. Milagre não teve a sorte do sargento Wagner Leite da Silva, que foi atropelado por um caminhão em cima da ponte de acesso à Rodovia Dutra, na Marginal do Tietê. Em 14 de março de 2013, ele e o policial Edivanil Bispo dos Santos vigiavam o local quando ouviram um barulho. Era um caminhão biarticulado subindo o viaduto. Parecia descontrolado. Silva subiu na mureta da ponte. Bispo correu. 

“O caminhão bateu no lado da viatura, que levantou do chão. Ela veio raspando a mureta e bateu na minha perna. Não acreditei que estava caindo e abri os braços: ‘Meu Deus, estou caindo’. De repente, já estava no chão.” Silva caiu de 17 metros de altura, com a espingarda nas costas, em cima de entulhos. O caminhão prosseguiu até colher Bispo, que também foi atirado do alto da ponte.

Silva quebrou três costelas, o ombro, o pulso, o fêmur esquerdo, deslocou a bacia e torceu duas vértebras da coluna. Conseguiu ficar em pé em janeiro de 2014. Fazia fisioterapia e hidroginástica. Em 2015, voltou para a corporação. Hoje, trabalha no 27.ª Batalhão, na zona sul. 

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