A cada 10 municípios paulistas, 1 tem arquivo

Mesmo entre as cidades que têm documentação guardada, sistematização falha e não padronizada dificulta pesquisas

, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2010 | 00h00

Para encontrar um documento nos meandros da burocracia em um dos 645 municípios paulistas, é preciso muita sorte. Apenas 67 deles, pouco mais de 10%, portanto, têm um arquivo público - organizado minimamente e reconhecido pelo Departamento de Gestão do Sistema de Arquivos do Estado de São Paulo.

Tamanha é a desorganização que órgão nenhum faz ideia, por exemplo, das peculiaridades de cada coleção. "Nos últimos meses, percorri, com fins de pesquisa, 20 cidades do oeste paulista", afirma o historiador Célio Losnak, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). "Em nenhuma encontrei um arquivo público sistematizado. Quando há arquivo, funciona como um depósito. Essa situação atrapalha a pesquisa do historiador e prejudica a preservação da história da sociedade."

Sem pistas. Quem neles procura a história da família também encontra problemas. "Meus avós vieram da Espanha e, quando quis montar a árvore genealógica da família, fui atrás da trilha", explica a administradora Simone Fernandes. "Vasculhei os papéis de São José do Rio Pardo, onde minha tia-avó se casou, e não encontrei nem um papelzinho sequer para comprovar a união."

Mas a situação já foi pior. Se hoje são 67 arquivos públicos municipais com uma organização razoável, em 1999 eram apenas nove. E o governo estadual nem fazia um levantamento quantitativo dos que existiam. "Ligamos para cada um dos municípios paulistas para chegarmos ao número", diz o historiador Pedro Luís Puntoni, da Universidade de São Paulo (USP).

Entre 1999 e 2004, ele desenvolveu um projeto voltado à questão. "Tínhamos uma proposta de instituir e organizar os arquivos. Acabamos produzindo um manual e fazendo parcerias com dois municípios."

Exemplo. Um desses é Itatiba. "Aqui havia aquilo que é chamado pejorativamente de arquivo-morto", compara o historiador Luís Soares de Camargo, atual secretário da Cultura do município. Eram três salas, onde ficavam os documentos. O acervo não estava sistematizado. "E sempre que o espaço ficava lotado, fazia-se um descarte", revela. Hoje guarda 1.400 metros de papelada histórica em uma área de 1 mil m².

São cinco funcionários e tudo está catalogado e informatizado. "Itatiba é uma das poucas cidades que se orgulham de ter documentação tão antiga quanto sua origem", ressalta Camargo. O município foi fundado em 1857 - os papéis mais antigos guardados datam de 1833, quando a área ainda pertencia a Jundiaí; são relatos policiais, com informações de crimes e prisões.

Cidade com significativa importância histórica - com recém-completados 400 anos de fundação e tendo protagonizado episódios como a Convenção Republicana de 1873 -, Itu tem um caso peculiar de arquivo. Apesar de não constar da lista oficial do governo do Estado, o acervo está lá, bem-guardadinho em sala climatizada e acessível a pesquisadores. Desde 2007 o material foi cedido, em comodato, à USP. Ali há documentos que datam do século 18 - o mais antigo é de 1793 -, entre inventários, testamentos, alforrias e escrituras.

Quando receberam a coleção da Prefeitura, os profissionais da USP precisaram organizar tudo. "Tivemos de recondicionar documento por documento", explica a coordenadora, Anicleide Zequini.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.