José Patrício/AE
José Patrício/AE

A busca pelo filho que o crack levou

Depois de ver uma foto no ‘Estado’, Fátima foi procurar Edmundo no meio da cracolândia

10 Dezembro 2011 | 19h07

SÃO PAULO - O coração de dona Fátima ficou pequeno, apertado, como um nó. Era pouco depois do meio-dia da última quinta-feira, quando seus olhos passaram de relance pela Primeira Página do Estado, que estava em cima da mesa da cozinha.

 

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Foram centésimos de segundos, mas o suficiente para fazer as pernas de Fátima fraquejarem. Uma fotografia da cracolândia estampava a edição. O flagrante trazia sete usuários de drogas, sujos, maltratados, sentados na sarjeta, acendendo um cachimbo de crack. Na imagem, jura ela com os olhos cheios de lágrimas, está seu filho Edmundo, há seis meses desaparecido.

"Fiquei com um aperto no peito, não sei se feliz de ver que ele pode estar vivo na cracolândia, ou triste de vê-lo naquela situação", diz ela, que ligou para a redação para saber mais detalhes sobre aquela imagem. "Meu chão sumiu na hora em que vi a foto no jornal. Eu sei que é ele, eu reconheço até a camisa que ele está usando. Faz seis meses que meu filho sumiu, depois que eu e meu marido descobrimos que ele estava roubando minhas roupas, minhas joias. Também encontrei um cachimbo dentro de um bolso de um casaco. Desde então, estou procurando o Edmundo, passo horas na Praça da Sé (no centro de São Paulo) procurando por ele, já fui olhar até embaixo dos viadutos. Vivo sem saber como prosseguir, sem saber como vai ser o meu Natal, sem saber como vai ser minha vida daqui para frente."

Na tarde de sexta-feira, Fátima tomou um calmante e foi sozinha procurar seu filho na cracolândia, munida apenas de duas imagens. Na mão esquerda, uma foto 3X4 de Edmundo todo arrumado, com camisa branca impecavelmente passada, gel no cabelo, um leve sorriso no canto da boca. Na mão direita, um recorte amassado da foto do Estado, possivelmente com um Edmundo descalço, imundo, com feridas nas pernas. É um bocado difícil encontrar qualquer similaridade entre as duas pessoas, mas Fátima não tem dúvidas. "Uma mãe sabe reconhecer seu filho, mesmo que ele esteja irreconhecível pelo crack", diz ela.

Edmundo, de 29 anos, o mais velho de três filhos, sumiu em junho. Já fazia cerca de um ano que estava diferente, mais quieto, cada vez mais magro. Recentemente, pediu dinheiro para fazer um curso técnico, algo que ninguém sabe se ele realmente cursou. Pediu também dinheiro para comprar casacos, camisas e calças, roupas que invariavelmente sumiam logo depois. "Nessa época também começaram a sumir algumas joias", conta Fátima. "Claro que eu não suspeitei, a mãe nunca suspeita do filho. A mãe nunca quer acreditar, é o pior tipo de cego."

Quando mais objetos desapareceram e Fátima chamou a polícia para investigar, Edmundo sumiu, deixando documentos, roupas e familiares para trás. Desde então, a família inteira vive em estado de suspensão, esperando um telefonema, uma pista, um filho de volta. "Nós guardamos isso só para a gente, porque não dá para ficar divulgando", diz ela, que pediu para não ser identificada na reportagem. "Trabalho para pessoas com dinheiro, elas me olhariam de um jeito diferente se soubessem que tenho um filho viciado", acredita.

Ajuda. Fátima nunca tinha ido à cracolândia, na Luz, região central. Na esquina da Rua Helvétia com a Alameda Cleveland, ela ficou novamente com o coração apertado. "Meu Deus", disse, baixinho. "Quanta gente. Quantas mães sofrendo, né."

Para quem nunca viu, a cena é impressionante. Para quem já viu, é sempre revoltante. Mais de 300 viciados em crack confinados em poucos metros, deitados, sentados, andando de um lado para o outro, revirando lixo, acendendo cachimbos, raspando o asfalto em busca de migalhas de crack, arrumando briga, urinando e defecando no chão.

É praticamente impossível reconhecer algum tipo de humanidade por ali, entre os olhares perdidos e os dentes trincados. Mas ela existe, sim – é só Fátima se aproximar deles, receosa, com as fotos nas mãos, que vários usuários se amontoam em volta para tentar ajudar. É uma estranha forma de compaixão, um inesperada solidariedade, como se aquelas pessoas no fundo também desejassem que suas mães estivessem ali procurando por elas.

"Eu acho que vi ele, sim."

"Eu não sei, faz seis meses que ele desapareceu? Ele deve estar muito diferente."

"Se ele estiver aqui, a senhora vai achar, fé em Deus."

"Deixa um xerox da foto que a gente ajuda a achar."

"Espero que a senhora tire ele desse inferno."

Por mais de uma hora, Fátima rondou as ruas da Luz, sempre contando com o apoio dos próprios usuários, que pediam para ver as fotos e indicavam lugares escondidos no meio dos prédios, esconderijos no meio das paredes onde eles dormem. Edmundo, no entanto, não estava lá, pelo menos não na tarde de sexta. Mas Fátima acredita que ele estará lá, sim, algum dia desses. "Eu vou voltar na cracolândia até achá-lo", diz. "Nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida, eu vou levá-lo de volta para casa."

 

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