A arma que não veio da Amazônia

Até a semana passada, estávamos perdendo a guerra contra as bactérias. Todo mês surge uma nova bactéria resistente aos mais poderosos antibióticos. A bactéria se espalha por um hospital, mata pacientes e finalmente é controlada com uma nova combinação de antibióticos. Todos os meses, os médicos infectologistas se desesperam com sua crescente impotência. E do desespero vem o aviso: mais cedo ou mais tarde vamos perder a capacidade de controlar as infecções. É uma questão de tempo.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

10 Janeiro 2015 | 02h03

Mas agora, depois de décadas sem um novo antibiótico em nosso arsenal, surge uma esperança. Cientistas descobriram um novo antibiótico que aparentemente é uma bomba atômica terapêutica. E o mais interessante: esse antibiótico foi descoberto estudando a biodiversidade de nosso planeta. Isso mesmo, a tal biodiversidade que estamos destruindo sistematicamente todos os dias antes mesmo de saber o que ela contém.

Antes da Segunda Guerra Mundial, uma em cada três crianças morria na primeira infância. O principal culpado era a pneumonia, bactérias crescendo no pulmão. A morte era quase certa. Hoje, basta uma semana de antibióticos e ela está curada. Mas, ao longo do tempo, as bactérias ficam resistentes aos antibióticos. E os cientistas respondem descobrindo novos antibióticos. E as bactérias ficaram resistentes aos novos antibióticos.

O problema é que, nas últimas décadas, a descoberta de novos antibióticos foi interrompida e começamos a perder terreno para o inimigo. As razões são conhecidas. Novos tipos de antibióticos geralmente são identificados cultivando bactérias isoladas da natureza. Como conseguimos cultivar somente 1% dos organismos presentes na natureza, essa estratégia se esgotou faz algumas décadas.

Um terceiro problema é específico do Brasil, onde existe a maior biodiversidade do planeta e onde existem mais chances de existir novos antibióticos escondidos na floresta. Por aqui, movidos por uma paranoia desproporcional, o governo tem um medo irracional de que nossa biodiversidade seja roubada (a tal biopirataria). Esse medo levou à criação de uma burocratização labiríntica, que impede que licenças para pesquisa e exploração da nossa biodiversidade sejam obtidas.

Mas então como foi descoberto esse novo antibiótico? Foi o produto de uma ideia simples, mas genial. Como a maioria das bactérias do solo não cresce em laboratório, os cientistas resolveram deixá-las crescer na terra, mas em uma microprisão. Construíram pequenos tubos metálicos abertos dos dois lados. Colocavam uma única bactéria recém-isolada do solo no interior do tubo, tampavam as duas extremidades com uma membrana semipermeável e enterravam essa traquitana de volta no solo. Esperavam algumas semanas e testavam as bactérias que haviam crescido nessa microprisão. Foi assim que eles isolaram 10 mil novas espécies de bactérias.

Uma dessas bactérias, vinda de um gramado do Maine (EUA), produzia algo que matava as outras bactérias. Esse "novo" ser vivo (que sempre esteve nas botas dos moradores do Maine) foi denominado Eleftheria terrae. Identificado o produtor do potencial antibiótico, os cientistas aplicaram de maneira sistemática as modernas técnicas de biologia molecular. Isso permitiu descobrir como a E. terrae produzia essa molécula completamente nova que recebeu o nome de Teixobactin. Testes mostraram que cura rapidamente diversos tipos de infecções em ratos e camundongos.

Ele se liga a moléculas de gordura da parede de suas vítimas, impedindo sua reprodução. Os cientistas acreditam que esse mecanismo de ação vai dificultar muito o aparecimento de variedades de bactérias resistentes a esse antibiótico. Agora os cientistas vão testar essa molécula em seres humanos. Se tudo der certo, o Teixobactin vai estar nos hospitais na próxima década.

Se um gramado do Maine esconde essa maravilha, imagine o que pode estar escondido na gigante biodiversidade da Floresta Amazônica. Mas no Brasil é impossível. Floresta por aqui ainda só serve para ser queimada e transformada em pasto.

É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: A NEW ANTIBIOTIC KILLS PATHOGENS WITHOUT DETECTABLE RESISTANCE. NATURE DOI:10.1038/NATURE14098 2015

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