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37 deficientes sofrem violência por dia no Estado de SP

- Atualizado: 27 Novembro 2014 | 11h 14

Entre junho e agosto foram 4.452 ocorrências e 4.502 vítimas, diz Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência

SÃO PAULO - No Estado de São Paulo, são registrados 37 episódios de violência contra deficientes por dia. Entre os meses de junho e agosto de 2014,  foram 4.452 ocorrências, envolvendo 4.502 vítimas. Os dados obtidos pelo Estado serão divulgados na capital nesta quinta-feira, 27,  no seminário Enfrentamento da Violência contra Pessoas com Deficiência, da secretaria estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência.

Mais de um quarto dos casos (26%) foram registrados na capital. Na Grande São Paulo, o porcentual é de  19,1%. No interior, os maiores índices de violência estão em  Ribeirão Preto (2,5%) e Campinas (2%). Em todo o estado, há cerca de 9,3 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, segundo a SDPD. 

Vítima mais comum é a que tem algum tipo de deficiência física(42%)
Vítima mais comum é a que tem algum tipo de deficiência física(42%)

A vítima mais comum é a que tem algum tipo de  deficiência física(42%), seguida por intelectual (19,1%), visual (15%) auditiva (12,6%) e múltipla (6,6%). Os crimes mais recorrentes são contra a pessoa (33,7%) e contra o patrimônio (31%), mas também há dados sobre violência doméstica (5%), contravenções (3%) ou crime contra a dignidade sexual (2%). 

Os dados mostram que tipo de crime afeta quem possui algum tipo de deficiência específica. Furtos e roubos foram mais registrados contra quem tem deficiência auditiva (42%). Vítimas com deficiência intelectual são as que mais sofreram crimes contra a dignidade sexual (2,07%). Já crimes contra o patrimônio são mais frequentas em vítimas com deficiência visual (40,7%).

As informações começaram a ser compiladas em junho deste ano, quando as delegacias de São Paulo passaram a incluir no registro digital de ocorrências (RDO) um campo em que a vítima pode declarar se possui deficiência. Na mesma época, foi criada a primeira delegacia da pessoa com deficiência, responsável por produzir as estatísticas do estudo. A unidade, que está localizada na rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo, atende episódios de discriminação e outros crimes em que a deficiência da vítima seja um agravante. 

Denúncias por telefone. No Disque 100, serviço de denúncia da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDHPR), há registro de 4.234 mil casos de violência contra deficientes entre 2011 e junho de 2014 em São Paulo. Em quatro anos, o número é de 26,9 mil  episódios de agressão no País. Em 72% dos casos, o agressor é da família da vítima. 

Para o presidente da Associação para Valorização das Pessoas com Deficiência (Avape), Carlos Ferrari, o resultado do levantamentento não surpreende, já que os relatos são constantes. "O choque social diante da informação se dá por conta de uma invisibilidade da questão. Há uma falsa sensação de cuidado com o segmento. O que ocorre é o contrário, a sociedade se omite". 

De acordo com Ferrari, o problema da violência deve ser enfrentado "sem grandes retóricas". "O dado está posto e nós precisamos, de forma articulada, enfrentar isso de frente, sem romantismo". O mais grave, para ele, é que a violência não é apenas física. "A violência silenciosa é a mais perversa. A que faz com que a pessoa fique trancada no quarto dos fundos ou não possa entrar em determinada parte da casa porque não há acessibilidade". 

Treinamento.  "Ao criar o campo que identifica a vítima como pessoa com deficiência, começa-se a ter outra leitura. Estamos ampliando a possibilidade de identificar os casos e a origem da violência", explicou a secretária da pasta responsável pelos dados, Linamara Rizzo Battistela. De acordo com ela, as polícias civil e militar  terão treinamento, no próximo ano, para atender às pessoas com deficiência. Serão aulas online dadas em um curso de 10 meses. "A ideia é aumentar a informação para que possamos identificar os casos de maneira mais rápida, fazer a prevenção e o atendimento". 

Depois do levantamento, o próximo passo da secretaria é buscar planos de ação específicos para os resultados obtidos. "Vamos identificar se a questão está no seio da família, na vulnerabilidade social ou na instituição", explicou. "Entendo que é uma ação permanente para organizar uma rede de proteção e prevenção, oferecer atendimento a vítimas, famílias, e eventualmente, agressores".

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