GABRIELA BILO/ ESTADAO
GABRIELA BILO/ ESTADAO

2/3 dos semáforos paulistanos tiveram pane no ano; Doria retoma manutenção

Houve falhas em 4.312 dos 6.399 aparelhos da capital, segundo levantamento feito pelo ‘Estado’; há 50 equipamentos que se quebraram mais de 25 vezes em 2017. Especialistas cobram a modernização do sistema e CET promete lançar PPP até 2020

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2017 | 03h00

Neste ano, dois em cada três semáforos instalados na capital paulista já quebraram ao menos uma vez, deixando cruzamentos sem sinalização. Foram 4.312 dos 6.399 aparelhos danificados, segundo levantamento feito pelo Estado, com base em informações da Prefeitura. Nesta sexta, a gestão João Doria (PSDB) anunciou a assinatura de contratos para retomar os serviços de manutenção dos equipamentos, paralisados desde o começo de 2017. 

Sem essa manutenção, a capital paulista enfrentou 19.846 panes – e há 50 equipamentos que se quebraram mais de 25 vezes no ano. Isso dá uma média de 104 panes por dia, mais de quatro a cada hora no ano. 

As informações foram repassadas pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) por meio da Lei de Acesso à Informação. Os dados mostram que o problema aparece em toda a cidade, mas se concentra na região central, onde há também a maioria dos equipamentos. O semáforo campeão de ocorrências fica na Rua Angélica, em Higienópolis, na esquina com a Rua Maceió. Nesse caso específico, a CET informou, por meio de nota, que havia um problema não solucionado entre a empresa e a concessionária de fornecimento de energia. “Diante do cenário, a companhia fez uma adaptação na regulagem de tensão para corrigir a falha em junho”, diz a empresa.

O maior tipo de falha apontada pela CET foi “semáforo apagado”, com 5,5 mil registros. É um tipo de falha em geral relacionada com problemas elétricos no sistema. Na sequência, há “semáforo em amarelo intermitente”, quando a sincronização entre os diversos grupos focais que compõem o semáforo de um cruzamento entram em pane – e, por segurança, o sistema se desliga, à espera do técnico para fazer a manutenção.

A CET argumenta que, neste ano, houve ainda outros contratempos. “Janeiro de 2017 teve o terceiro maior índice pluviométrico de toda a série histórica do Centro de Gerenciamento de Emergências”, diz a empresa. “Além disso, até julho de 2017 foram registrados mais de 400 casos de furtos em semáforos na capital.” A empresa afirma que um único caso de furto pode comprometer até seis sinais. 

Contratos. A contratação para a manutenção da rede foi assinada nesta sexta-feira, 18, por R$ 40,8 milhões. Três empresas ficarão responsáveis cada uma por uma área do Município. O Consórcio MCS Inteligente vai atuar em parte da região central e na zona leste. O Consórcio Semáforo Paulistano ficou com parte da área central e as zonas norte e oeste. Já a empresa Arc Comércio Construção vai trabalhar em parte da região central e na zona sul. 

Para o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Engenharia de Trânsito (Abeetrans), Silvio Médici, os novos contratos devem por fim à onda de apagões da cidade. Mas não é a principal medida para melhorar essa área da gestão pública. “Agora, é preciso investir para a melhoria dos equipamentos.”

Ele diz que, até o ano passado, foram adotadas medidas para reduzir panes como o isolamento da fiação elétrica, a troca de controladores semafóricos e a instalação se sistemas no break, que mantêm faróis acesos em casos de queda de energia. “Esses investimentos precisam ser aprimorados para que se tenha um controle inteligente do tráfego”, explicou.

“A CET prevê ainda nesta gestão lançar uma PPP (Parceria Público Privada) para modernizar todo o parque semafórico da cidade, renovando os equipamentos e adotando nova tecnologia”, informou a companhia, por meio de nota. 

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Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2017 | 03h00

A esquina da Avenida Angélica com a Rua Maceió, em Higienópolis, na região central, é o retrato do trânsito caótico de São Paulo. É lá onde fica o semáforo campeão de panes - foram registradas 91 entre janeiro e o dia 10 de julho, segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) -, que causa transtornos e expõe pedestres, ciclistas e motoristas a riscos.

A atendente Maria Aparecida Balbino, de 42 anos, conta que, na manhã desta sexta, quase presenciou um acidente. “Uma senhora foi atravessar com duas sacolas, mas um carro veio descendo. Ela até sinalizou com as mãos, mas não adiantou nada, o motorista teve de jogar o veículo para a calçada”, afirma. “Isso aqui é um sufoco.”

Aos carros que sobem e descem a Angélica, se somam veículos que desembocam pela Maceió e podem entrar nos dois sentidos. Sem sinalização, tudo vira uma confusão. Não raro, pedestres ficam retidos na calçada até que o fluxo diminua. Mas muitos também se aventuram a atravessar. Por isso, é comum ver pessoas gesticulando para alertar os motoristas ou até mesmo forçando passagem por meio do trânsito.

“É muito perigoso, toda hora você ouve uma brecada forte”, diz Tadeu Machado, de 70 anos, que tem uma banca de revista na esquina. Com um problema no quadril, ele usa bengala para caminhar. “Quando o pessoal vê que eu estou tentando atravessar, costuma respeitar. Mas já levei muito susto.”

Frequentadores da região dizem que os semáforos pioram em dia de chuva, apesar de haver manutenção. “Tem dia que a CET vem arrumar três vezes e não adianta”, afirma Machado. “É uma calamidade. E estamos falando de uma área nobre.” O office-boy Lucas Nogueira, de 20 anos, que trabalha de bicicleta na Angélica, já perdeu as contas de quantas vezes foi “xingado no farol”. “Não espero muito, não. Se a gente não meter a cara, fica muito tempo parado. ”

Perdizes. Na Avenida Pacaembu com a Rua Tupi, em Perdizes, na zona oeste, o semáforo já parou de funcionar 28 vezes. “Quando chove, ele apaga e, aí, vira bagunça. Trava o trânsito inteiro, é um caos”, diz o manobrista Felipe Rodrigues, de 29 anos, que trabalha na frente. “Já vi vários acidentes, normalmente envolvendo dois carros.”

O mecânico Hugo Cardoso, de 51 anos, afirma que, na Avenida Brigadeiro Faria Lima com a Rua Padre Garcia Velho, também na zona oeste, até o vento é motivo de transtorno. “Dava uma rajada, o sinal virava. A gente chegou a amarrar uma corda para tentar puxar de volta”, conta. Ao todo, foram 27 panes notificadas ali.

Na Avenida Inajar de Souza com a Rua Bartholomeu do Canto, no Limão, zona norte, houve 26. O mecânico de bicicleta José Valderi, de 30 anos, relata que viu dois acidentes mais graves no local só neste ano. No primeiro, um caminhão entrou de vez e acabou “arrancando” a frente de um automóvel. O outro foi no mês passado. “O sinal estava quebrado, a CET veio, bloqueou dois acessos com cones e depois saiu”, diz. “Um motociclista furou o bloqueio e acabou atropelado por um ônibus. Ele não resistiu”, conta. “No fim das contas, a gente está falando de vidas que são perdidas.”

Semáforos campeões de panes

1) Avenida Angélica X Rua Maceió C035 (Consolação): 91

2) Avenida Senador Queirós X Praça Alfredo Issa N.º 612 (República): 46

3) Rua Alvarenga X Avenida Afrânio Peixoto (Butantã): 38

4) Rua Santa Ifigênia X Rua dos Timbiras (República): 38

5) Praça Dr. João Mendes X Viaduto Dona Paulina (Sé): 38

6) Avenida Angélica X Rua Jaguaribe - C023 (Consolação): 37

7) Rua da Consolação X Rua Nestor Pestana (República): 36

8) Avenida General Edgar Faco X Avenida Paula Ferreira (Piritiba): 36

9) Avenida Sapopemba X Rua Buenópolis (Água Rasa): 35

10) Avenida Hebe Camargo - AMA - Prox. Rua Herbert Spencer (Vila Andrade): 34

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