22 favelas resistem em bairros nobres de SP

A falta de projetos municipais faz algumas ocupações se manterem por mais de 60 anos

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2011 | 03h02

Escondidas em ruas estreitas, pelo menos 22 favelas resistem em áreas nobres de São Paulo. A falta de projetos municipais de reurbanização para núcleos de bairro faz algumas ocupações já completarem mais de 60 anos. O número de imóveis passa de 1,6 mil, com a estimativa de que eles abriguem pelo menos 6 mil moradores que estão no fim da fila por uma habitação popular.

Levantamento feito pelo Estado, com informações da Secretaria Municipal da Habitação, mostra que há ocupações em Vila Mariana, Campo Belo, Itaim-Bibi, Aclimação, Brooklin e Vila Madalena, nas zonas sul e oeste. A maioria está distante de grandes avenidas e, por isso, chega a passar despercebida. No entanto, com exceção de Jan Breughel e Brooklin 2, todas as demais estão listadas no Plano Municipal de Habitação, com remoção prevista até 2024.

Na Favela Mauro, no Planalto Paulista, zona sul, a venda de drogas ocorre durante todo o dia e a lista de "clientes" inclui vizinhos da comunidade. Foi lá que, há nove anos, o estudante Gustavo Pereira, de 22 anos, comprou a cocaína que consumiu antes de matar a avó e a empregada da casa a facadas, no mesmo bairro.

A proximidade com a criminalidade, que muitos acreditam estar concentrada apenas nas grandes favelas, como Heliópolis e Paraisópolis, assusta vizinhos. Eles acionam a polícia para apartar brigas e reduzir os sons das festas, mas, por medo de represálias, não registram boletins de ocorrência.

Funk e tráfico. Nas comunidades mais organizadas, que têm associações de moradores, os "inconvenientes" são evitados. "Aqui, nós temos até horários para festas. Elas só podem ocorrer entre 8 horas e 22 horas. E, de preferência, sem tocar funk, que ninguém gosta", diz Cícera Vieira, de 37 anos, presidente da Associação de Moradores da Favela Mário Cardim, na Vila Mariana. Cícera diz que não tem, porém, como evitar o consumo de drogas na comunidade, embora garanta que não existe tráfico no local.

Mas as ocupações consolidadas em bairros nobres não têm apenas problemas comuns. As vantagens também são as mesmas: ruas asfaltadas, acesso a água, esgoto, escolas, hospitais e opções de transporte diversificadas - incluindo metrô.

Atualmente, a política municipal de habitação considera o risco oferecido pela moradia como fator primordial para a definição de prioridades.

Isso quer dizer que moradias precárias, de madeira, instaladas em cima de córregos ou morros, por exemplo, estão na frente de casas de alvenaria construídas em ruas planas na disputa pelo direito de adquirir uma unidade habitacional.

Prioridade. O promotor de Justiça Maurício Ribeiro Lopes, da Promotoria da Habitação e Urbanismo, considera que dar preferência a moradores de área de risco é uma política adequada da Prefeitura, mas não pode ser a única. "O direito à moradia é de todos", ressalta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.