1932, a esquina

Quando eu era menino, havia uma pequena placa na calçada da Praça da República, diante da Rua Barão de Itapetininga, com os nomes dos que ali morreram no banho de sangue da madrugada de 24 de maio de 1932. Houve feridos. O sangue ali derramado desenhou no peito do povo as letras rubras de um acrônimo que se transformaria numa bandeira e numa causa: MMDC. Ali começara a Revolução Constitucionalista.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2012 | 03h03

Foi do prédio em frente, ainda existente, da esquina da Praça da República com a Barão, que partiram os tiros de metralhadora e de revólver. Vieram do Partido Popular Paulista, ex-Legião Revolucionária, lá sediado, presidido pelo general Miguel Costa, um dos comandantes da Revolução de 1924, comandante militar da Revolução de 1930, que levara Getúlio Vargas ao poder, e recentemente demitido do comando da Força Pública pelo governador Pedro de Toledo. Era o que restava do Tenentismo em São Paulo.

Morreram: Mário Martins de Almeida, de 31 anos, fazendeiro em Sertãozinho, de visita aos pais, na Rua Guaianases, na Luz. Euclides Bueno Miragaia, de 21 anos, morador na Rua Gomes Cardim, no Brás, auxiliar do cartório de um tio, estudante na Escola Álvares Penteado. Drausio Marcondes de Sousa, de 14 anos, nascido no Brás, auxiliar de farmácia do pai, na Rua Oscar Freire, no Jardim Paulista. Antonio Américo de Camargo Andrade, de 31 anos, comerciário, morador na Rua Caio Prado, na Consolação. Único não católico, no seu sepultamento, no Araçá, fez a oração fúnebre o reverendo Miguel Rizzo Júnior, da Igreja Presbiteriana Unida. Eles deram seu nome ao MMDC. Uma quinta vítima, Orlando de Oliveira Alvarenga, de 32 anos, escrevente de cartório, morador na Rua Maranhão, na Consolação, faleceria no dia 12 de agosto.

O acaso das balas reunira numa sigla a diversidade humana de São Paulo, gente comum que ganhou nome na morte antes do tempo. Os restos mortais de todos seriam, mais tarde, transladados para o monumento-mausoléu erguido, no Parque do Ibirapuera, por Galileu Emendábile. Na pedra, o pranto identitário, o encontro e o retorno. Metamorfose da dor em memória.

Desde a tarde do domingo, dia 22, a multidão se reunira em protesto na Praça do Patriarca. Mobilizada pela retórica inflamada de um promotor público, Ibrahim Nobre, colocou-se sob a direção política da Frente Única Paulista, que reconciliava o progressista Partido Democrático com o conservador Partido Republicano. Reação ao enquadramento e à sujeição política de São Paulo por Getúlio Vargas. Um dos vários tópicos da inquietação popular era o decreto federal recente de acerto de divisas, pelo qual São Paulo perdera território e população para Minas. A multidão perambulava. Já empastelara dois jornais. Muitos, portando armas de fogo, foram parar ali naquela esquina. De um lado e de outro, era matar ou morrer.

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