Há vagas

Há vagas

Angélica Arbex

08 Novembro 2017 | 15h49

 

Vagas para curtos períodos como festas de final de ano, férias, feriados prolongados.

Não! Não era propaganda de um hotelzinho para seu animal de estimação ou de um hotel tentando vender seus pacotes de férias. Li a frase essa semana em um anúncio de um residencial para idosos. Aí fiquei pensando nessa história na prática. As crianças animadas  fazendo malas, com baldinhos de praia, brinquedos e aquele sorriso ansioso típico dos dias que antecedem as férias. Pais animados pelo tão sonhado tempo livre com as crianças e fazendo os planos de viagem na mesa do jantar, mas e a vovó? Poxa, que problema! para onde ela vai? E o anúncio responde: para uma residência temporária para idosos, ora bolas. Jura?


O Brasil é um país que está envelhecendo de modo super acelerado, segundo projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estratégia), a população acima de 60 anos alcançará 18,6% da população em 2030, e, em 2060, 33,7%. Mas a maneira como lidamos com essa realidade não caminha no mesmo ritmo. Tenho visto algumas iniciativas ainda muito tímidas, mas interessantes, como lançamentos residenciais para este segmento,  fóruns da longevidade criados por seguradoras e diversas instituições. Ainda muito pouco perto do que a população idosa vai representar logo ali, em menos de 50 anos no Brasil.

Viveremos mais, muito mais. Nossos filhos muito provavelmente passarão dos 100 anos. Precisamos repensar a vida nas cidades sob a ótica desses novos tempos, como vai ser o jeito de morar em uma São Paulo com mais de um terço da população na terceira idade? Essa turma toda vai estar quietinha num canto da casa dos filhos e nas férias deles, em um residencial de temporada? Acho que não.

Existem iniciativas inovadoras interessantes, acontecendo fora do Brasil, na Holanda por exemplo que tem hoje pouco mais de 18% da população na terceira idade (o Brasil daqui a 10 anos) . O Instituto Humanitas lançou um projeto que oferece moradia para jovens universitários em residenciais para idosos em troca de horas de trabalho voluntário destes no relacionamento com os idosos. Os jovem leem, fazem compras, preparam comida, conversam, fazem atividades juntos, trocam experiências de vida. Uma ideia simples e genial que está funcionando e melhorando muito a qualidade de vida pra os sortudos que vivem lá.

Outra iniciativa que existe desde 2010 é a Hogeweyk, vila projetada para idosos com demência severa como Alzheimer, em Weesp, também na Holanda. Pense num condomínio clube com total infraestrutura de serviços e lazer em um ambiente totalmente controlado e monitorado? Assim é essa vila dos sonhos  onde todos os funcionários trabalham sem uniforme, não caracterizando vigilância constante. Caixa de supermercado, varredores de ruas, atendentes no comércio, todos são funcionários que estão lá dedicados ao cuidado dos moradores.   Lá não circula dinheiro, mas os moradores podem ir ao mercado, ao teatro, à praça, contar repetidamente suas histórias de vida a ouvidos atentos e interessados.  E tudo que é consumido, adquirido no comércio, assim como a moradia,  já está incluso na mensalidade paga pela família. Até neste ponto a ideia é boa. Cada família paga quanto pode, famílias com maior renda têm mensalidades maiores, outras contribuem com menos até algumas que podem abrigar seus idosos sem pagamento algum. É a Holanda.

Nos dois exemplos os idosos vivem a vida cotidiana melhor, mais felizes, com menos remédio e mais autonomia. A convivência com a família fica muito melhor, de obrigação, vira prazer. É um jeito inovador de viver, de morar, de pensar no futuro da gente. Em 2060 vou engrossar o couro dos brasileiros na terceira idade, com 84 anos, espero ter a sorte de viver numa cidade mais parecida com Weesp. Acho que se a gente acelerar agora, ainda dá tempo de ser uma velhinha muito feliz numa vila dessas aqui mesmo, em São Paulo.