E se não existissem muros?

E se não existissem muros?

Angélica Arbex

12 Maio 2017 | 12h03

Não faz muito tempo,  acompanhei uma pesquisa que apresentava a principal razão  que faz com que as pessoas escolham viver em apartamentos ao invés de casas. O resultado não é nenhuma surpresa: segurança, segurança, segurança é o que todo mundo diz. Nas últimas duas décadas a cidade de São Paulo “ganhou” cerca de 500 mil apartamentos em um processo acelerado de verticalização. O maior e mais acelerado do país. Em uma conta simples de 4 pessoas por imóvel, 2 milhões de pessoas passaram a viver entre muros, grades e câmeras. Mas por que será que os condomínios geram essa sensação de segurança nas pessoas? São os muros, as grades, a sensação de isolamento?  Nós e eles. Lá na rua tudo pode acontecer e passando a portaria estamos no nosso oásis, no nosso porto seguro.

Penso como seria incrível se a gente pudesse ter essa sensação de segurança em toda parte da cidade. Caminhando pelas ruas, praças, avenidas, lojas, escolas, casas, condomínios sem que  os muros tivessem a função de proteger, de isolar, de segregar. Participei de um encontro muito interessante essa semana que discutia o futuro das cidades. Com um grupo diverso e interdisciplinar  os debates foram conclusivos no conceito de que quanto mais ocupada estiver a cidade, quanto mais gente caminhando, usando os espaços públicos, os parques, as praças mais seguro este lugar fica.

Algumas pessoas lá reunidas, relembraram o conceito de “olhos da rua” retratado por  Jane Jacobs, em seu Morte e Vida nas Grandes Cidades. Os “olhos da rua” são a vida que acontece fora dos muros, as pessoas que caminham pelas calçadas, a mãe que vigia pela janela o filho brincando, os comércios de rua com fregueses e funcionários em constante interação. Quanto mais olhos a rua tiver, mais segura ela fica e claro, a contrapartida também é verdadeira.  Talvez este seja o conceito mais conhecido e unânime sobre segurança urbana.


Eu confio na construção de um futuro onde os muros não serão mais necessários e os condomínios se transformem em mais um agente dos olhos da rua. Integrados à cidade, formando novas comunidades que compartilham interesses, informações, formando uma rede urbana viva e colaborativa. Quanto mais vida há no entorno, mais seguro ficamos todos, seja lá onde estivermos. O incentivo à construção de empreendimentos com Fachada Ativa , ou seja, o uso do térreo para a abertura de áreas não residenciais de comércio e serviços é um caminho para aumentar o trânsito de pedestres. Outras iniciativas importantes e frequentes ajudam também, a revitalização das praças e parques, a melhoria da qualidade das calçadas, o conceito de produção e consumo local.

A sensação de que o público e o privado se integram gerando maior prazer do Paulistano em viver na sua cidade, em pertencer a ela cria uma nova lógica urbana. Acredito na construção desta nova São Paulo.

Quando meu filho de 5 anos  me pergunta porque na nossa cidade existem tantos prédios, eu digo a ele que São Paulo é uma cidade tão incrível, tão legal que muita gente quer morar nela. E  é tanta gente que não teria espaço para que todas as pessoas vivessem em casas, então foram sendo construídos os prédios para que muitas pessoas pudessem compartilhar este espaço. Ele fica feliz com a resposta e continua fazendo outras muitas perguntas sobre a vida. Quem sabe quanto ele tiver a minha idade, essa minha visão romântica, seja a única verdade sobre a verticalização nas grandes cidades.