Cada janela, uma história

Cada janela, uma história

Angélica Arbex

27 Setembro 2016 | 16h20

SAO PAULO

Semana passada, assisti por indicação de alguns amigos o Filme O Som ao Redor, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, disponível no Netflix. Gostei muito do filme e falo dele por aqui, por ter encontrado na história contada por ele,  num bairro de classe média de Recife, o cotidiano dos condomínios de São Paulo, do Rio de Janeiro, de qualquer grande cidade. Uma história diferente em cada janela, tanta gente que se cruza só porque resolveu morar no mesmo lugar.

No filme, há uma cena muito interessante sobre uma reunião de condomínio onde o grupo está reunido para avaliar o que fazer com o porteiro indisciplinado, mas que trabalha lá com eles há muitos anos. O síndico dizia, já tenho os cálculos da demissão aqui, o valor parece muito alto para todos, será que vale a pena tentarmos uma justa causa, já que motivos não faltam  e por aí vai, uma discussão interminável que deságua em muitas outras e que não chega a nenhuma conclusão concreta. Quem é que vive em condomínios e nunca passou por situação parecida?

Em outra “janela” tem a história da dona de casa que vive inconformada com o barulho do cachorro e, no fim, aquele vira o maior problema da vida dela. Tem o adolescente de classe alta que apronta todas pela vizinhança só por birra, o cara gente boa que defende o porteiro, é amigo da empregada doméstica, e  dono da história romântica do filme. O  grupo todo preocupado com a segurança e que por fim, acaba aceitando a contratação de uma equipe de vigilância para dar um reforço e combater a crescente onde de violência que assusta sempre os moradores das grandes cidades.

Vale a pena ver, os spoilers param por aqui,  e reconhecer um tanto da gente naqueles personagens. A tal da classe média, o nosso jeito de viver. No fundo, os problemas são todos parecidos. Todo mundo que vive em condomínio tem uma vizinha fofoqueira, um grupo gente boa que quer fazer o bem, donos de cachorros bem educados, donos de cachorros mal educados, um cano estourado com um super vazamento na conta, aquele cara do “32” que nunca estaciona direito, e o cara da cobertura que só porque tem o apartamento maior fica horas segurando o elevador.

Se os problemas de quem vive vertical são todos parecidos, acho que a diferença está no jeito como a gente lida com eles. O cachorro, o carro, a criança, o cano estourado podem ser grandes problemas que acabam com o seu dia ou pequenas chateações que com bom senso e paciência viram só história pra contar. Claro que viver junto não é fácil, mas dá pra fazer a vida do portão pra dentro ser mais simples, né? Afinal,  é nosso papel fazer da hora de chegar em casa,  a melhor  parte do dia.