WhatsApp e Face obrigam novo debate sobre o sensacionalismo no jornalismo
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WhatsApp e Face obrigam novo debate sobre o sensacionalismo no jornalismo

Bruno Paes Manso

02 Dezembro 2014 | 09h05

Passeata ocorrida no Rio Pequeno contra extermínio de quatro jovens cujas fotos foram divulgadas aos familiares no WhatsApp

Passeata ocorrida no Rio Pequeno contra extermínio de quatro jovens cujas fotos foram divulgadas aos familiares no WhatsApp

Nos anos 1980, o radialista Gil Gomes fez história ao narrar de forma teatral os crimes que ocorriam nas periferias de São Paulo. Assim ajudou a criar em torno desses bairros um imaginário de terror, como se fossem ambientes repletos de vilões amedrontadores que não fariam falta se exterminados.

Outro radialista famoso na época foi Afanásio Jazadji, com mais de um milhão de ouvintes por dia na cidade. Entraram para os anais as entrevistas que fez com Chico Pé de Pato, um justiceiro dos Jardins das Oliveiras, na zona leste, que virou herói popular ao justificar ao vivo os assassinatos de “bandidos” em um bairro onde a polícia lavava as mãos na tarefa de combater o crime. Pé de Pato se tornou sinônimo de justiceiro em São Paulo e até hoje o radialista é recordista em votação na Assembleia legislativa, quando foi eleito deputado estadual em 1986.

Depois vieram programas como Aqui Agora, Ratinho, entre outros. Atualmente, Datena e Marcelo Rezende seguem linhas semelhantes. Estão mais preocupados com o entretenimento do que com o jornalismo. Qual a diferença? Esses formatos sensacionalistas, em vez de tratar a segurança pública de forma crítica, se aproveitam do medo da população para conseguir mais Ibope. Preferem aguçar as neuroses e não querem informar. Criam bodes expiatórios, dividem o mundo de forma simplista entre bem e mal para que seus âncoras possam se vender como espécies de vingadores midiáticos. Quanto maior a sensação de vulnerabilidade de seus telespectadores, melhor para a audiência dos programas.

O formato, aliás, não é novo. Desde a Idade Média, quando a Justiça ainda engatinhava, os enforcamentos e esquartejamentos em praça pública serviam como um teatro eficiente na tentativa de aplacar a insegurança e o desejo de vingança da população. Nas sociedades civilizadas, conforme o Estado de Direito se faz presente, esses espetáculos macabros  perdem espaço e deixam de fazer sentido. O sucesso dos programas de entretenimento policial é o sintoma da fragilidade das instituições de Justiça e de segurança pública no Brasil.

Cabe ao jornalismo comprometido com os valores democráticos ser uma espécie de anti-Datena, opondo-se a esse discurso simplista que enxerga o mundo de forma infantilizada e maniqueísta. Como a história tem mostrado, a crença na cultura da justiça privada é um dos mais fortes venenos que ameaçam a credibilidade das instituições de segurança e de Justiça. Cobertura de segurança pública e de direitos humanos devem andar juntas – essa, por exemplo, é a meta do canal Ponte.org.

Ocorre que o jornalismo vem se transformando com velocidade estonteante. E uma novidade que chega via redes sociais coloca um novo e preocupante debate. Trata-se de informações compartilhadas de forma viral, fotos de corpos, ameaças de supostas autoridades e integrantes de facção, salves e ordens de vingança, que pior do que os programas sensacionalistas só reforçam o medo e as visões estereotipadas que envolvem  o tema.

Nos últimos dias, por exemplo, recebi de fontes diversas nas redes sociais arquivos de um suposto tenente da Rota defendendo absurdos sobre assassinatos de suspeitos. Chegaram de diversas fontes via WhatsApp e Facebook. Antes disso, na segunda-feira passada, quando a zona norte viveu momentos de tensão e conflitos, vieram via WhatsApp áudios em que um policial militar alertava outros para a morte de JJ. A vítima seria sintonia do PCC e o assassinato dele poderia provocar a revanche dos integrantes da facção. Junto com o áudio vinha uma imagem do Fotocrim (sistema ao qual só as autoridades tem acesso) e fotos da vítima no IML.

Ainda nesse dia, chegou outro arquivo de áudio em que uma suposta liderança do PCC clamava aos “irmãozinhos” a queimarem ônibus e iniciarem uma baderna na região. Recebi os arquivos, assim como diversas pessoas, antes da confusão começar nas ruas da cidade. Soube de pessoas que receberam o mesmo áudio em Florianópolis, distribuído por uma torcida organizada que alertava os a seus associados iminente em São Paulo.

É também cada vez mais comum que de fotos de ocorrências policiais com mortes que chegam via WhatsApp. Nenhum desses casos são confirmados. São informações soltas, sem autenticidades, mas que hoje formam o imaginário daqueles que as recebem.

O caso de compartilhamento viral mais absurdo e ultrajante ocorreu em setembro deste ano. Quatro jovens moradores do Rio Pequeno, na zona oeste de São Paulo, foram acusados de roubo pela PM e depois morreram durante um suposto tiroteio com cinco policiais. Foto dos jovens mortos e de seus corpos no IML e na cena do crime foram divulgadas aos seus parentes pelas redes sociais. Em novembro, no Pará, depois da morte de um policial, integrantes da corporação local foram acusados de matar nove pessoas na periferia de Belém.

Como lidar com essa nova modalidade de informação? Mesmo quando as fontes não são confirmadas, esses compartilhamentos estão fazendo estragos. Nas escolas do Rio Pequeno, por exemplo, as imagens dos jovens do bairro baleados e mortos rodaram na mão das crianças de menos de 10 anos  de idade e se tornou o principal assunto dos estudantes. Eles reclamam do ambiente de medo e de terro imposto pela polícia local. Na sexta-feira, profissionais da rede de ensino articularam, juntamente com o movimento negro da região, um protesto para que todos pudessem discutir o assunto e mostrar o drama que os jovens do bairro estão vivendo.

O WhatsApp e as redes sociais, inclusive, são atualmente fonte de preocupação para o comando da Polícia, que já percebeu os riscos que provocam à já abalada credibilidade da instituição. Nas páginas de policiais e de seus admiradores são compartilhadas fotos de imagens de corpos e de humilhações em ocorrências policiais. Depois, não adianta a PM culpar a imprensa pelo fato de ser vista como tolerante com o extermínio de suspeitos.

Essa nova modalidade maluca e macabra deve ser tema prioritário daqueles que discutem jornalismo e comunicação nos dias de hoje. O que fazer quando o boato e o senso comum se tornam fonte de (des) informação? Os compartilhamentos entre iguais, pessoas que pensam da mesma maneira, sem abertura para as visões contraditórias, é um retrocesso. Evitar essas conversas entre os pares e jogar as informações que confrontem algumas verdades já formadas continua sendo papel fundamental do jornalismo.

Os jornalistas não podem perder de vista que devem continuar exercendo o papel inconveniente de publicar aquilo que os outros não querem ler ou ouvir. Essa é a meta. Por isso que não devemos buscar aplausos. A impopularidade é sempre fascinante.