Fotos inéditas das penitenciárias paulistas. Para entender o PCC, devemos jogar luz para dentro das celas
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Fotos inéditas das penitenciárias paulistas. Para entender o PCC, devemos jogar luz para dentro das celas

Bruno Paes Manso

01 Abril 2014 | 10h45

Há notícias que preferimos manter nas sombras, esquecidas em algum canto escuro da cabeça. É como se, distante das nossas consciências, o problema milagrosamente deixasse de existir. Essas realidades desagradáveis para a maioria, no entanto, devem ser abordadas e são a matéria-prima deste blog. Aqui sentamos todos no divã porque acreditamos que o jornalismo precisa sobreviver justamente para encarar essas verdades inconvenientes. Buscar informações sobre nós mesmos nos ajuda a desfazer os estereótipos e o senso-comum que nos cegam e nos embrutecem.

Dentro desse espírito, em 20 anos de jornalismo e mais de 10 anos lidando com o tema da segurança pública, creio que poucos assuntos são tão impopulares como o das prisões e do sistema penitenciário. Falar de preso ou do sistema só excepcionalmente, quando cabeças de presos são cortadas, como ocorreu em Pedrinhas, ou em megarrebeliões, com as do Primeiro Comando da Capital em 2001 e 2006. Nem mesmo a greve serviu para tentarmos voltar os holofotes para dentro das celas.

Atualmente, em São Paulo, são mais de 206 mil pessoas em um sistema com 120 mil vagas. Faltam 85 mil vagas no sistema paulista, a assistência médica é praticamente inexistente, o trabalho diário dos agentes penitenciários é insalubre, há um intenso mercado de drogas nas prisões do Estado. As prisões se fortalecem no Brasil como escritórios do narcotráfico. É de lá que o tráfico se organiza por todo o Brasil, onde foram feitos os contatos para todo o Brasil.

Foi a partir causa do desinteresse da população que o Primeiro Comando da Capital (PCC) cresceu diante de nossos olhos míopes, sem que fôssemos capazes de distinguir até onde ia a realidade e começava o mito. As autoridades passaram a jogar com a ignorância e o descaso da população sobre o tema. Hora, segundo os políticos, a facção foi dominada e não representa mais perigo. Depois, normalmente em períodos pré-eleitorais, a facção ameaça grandes atentados contra um Governo que afirma nada temer.


Vemos o assunto passivamente, sem interesse, como se tivéssemos preguiça de exercer a crítica. É fundamental compreender, contudo, que quando mandamos os acusados às prisões, não os enviamos para um mundo paralelo, que não exerce influência sobre o universo de onde vieram. As prisões e o mundo exterior estão cada vez mais intrincados. O que produzimos em nosso sistema carcerário está diretamente relacionado com o que ocorre do lado de fora. Considerados os parentes dos presos, gravita entre o sistema carcerário paulista cerca de 1 milhão de pessoas, população semelhante à da cidade Campinas, uma das maiores do Estado.

Existe todo um mundo novo a ser compreendido, já que a população carcerária cresceu 770% nos últimos 20 anos em São Paulo. Na pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas com 750 presos paulistas, divulgada na semana passada, 48,3% dos que estão na prisão disseram que tiveram em casa um parente preso. O que isso significa? É como se as visitas e as conversas sobre o sistema carcerário na família tornassem, de alguma maneira, para as crianças que as ouvem e acompanham, o destino na detenção algo mais aceitável? Mais do que respostas, perguntas, perguntas e mais perguntas.

Fato é que o sistema penitenciário deve ser investigado. Os muros devem ficar transparente e devemos saber tudo o que se passa lá dentro. O que de fato é o PCC? Algum político é capaz de definir a facção? Quem toma conta das prisões? O PCC acabou de fato com o crack lá dentro? Qual o papel das drogas no dia a dia das cadeias? Quais os esquemas nos fornecimentos de suprimentos e reformas dos presídios, se é que existem? Quem ganha com esse descalabro? Por que gastamos mais de 2 mil por mês com presos, nesse sistema vergonhoso? Para onde vai o dinheiro?

O objetivo inicial deste post é começar a jogar luz sobre o sistema carcerário para torna-lo mais compreensível. As rebeliões do PCC deram as desculpas que as autoridades estaduais precisavam para restringir as visitas às prisões. Os políticos não se sentem na obrigação de prestar contas. Atualmente, integrantes da Pastoral Carcerária, do Conselho Penitenciário e da Defensoria Pública são dos poucos a entrar no sistema para saber o que se passa lá dentro. Mas eles são pressionados a não tornarem públicas essas informações. Nem os agentes penitenciários, que temem punição.

O blog conseguiu fotos inéditas que ajudam a mostrar a realidade do sistema. Essas imagens são do começo do ano, tiradas antes da greve dos agentes penitenciários. Em um Centro de Detenção Provisória de São Paulo, uma cela feita para 12 pessoas estava com 62 presos. No geral, esses locais têm três vezes mais gente do que vagas. Nesse CDP, por exemplo, para cerca de 800 presos, estavam  cerca de 2.200. Em meados de 2012, um preso morreu depois de ser atingido do alto por outro preso que dormia na rede. A proporção em cada uma delas é ainda maior porque os faxinas, presos que ficam responsáveis pelas tarefas do dia a dia do presídio, ficam em celas relativamente vazias. Os faxinas têm benefícios no sistema, ao mesmo tempo em que assumem duras responsabilidades diante dos presos e funcionários dos presídios.

 

Os furos nas paredes acabam danificando a estrutura do prédio. Esses buracos, contudo, são a  única alternativa para que os presos possam colocar a rede e consigam dormir todos na mesma cela. Eles furam a parede também para colocar as comidas que os familiares levam para complementar a marmita fornecida internamente. É a forma de evitarem os insetos andando pelo chão, que infestam a cela.

 

Essa é uma das hipóteses para explicar as doenças de pele. Segundo visitantes das prisões, as moléstias de tipos diferentes atingem 90% dos presos. A foto com suspeita de trombose é de um jovem de 19 anos.

Na pesquisa da FGV, 59%% dos presos disseram que não recebem atenção médica quando estão doentes. É a proporção mais baixa entre todos os países latino-americanos estudados (Chile, Argentina, México, El Salvador e Peru). Claro que muitos comentaristas, sem um pingo de criatividade, vão dizer que eles merecem, vão me atacar, etc. Nada de novo. Mas pensem. Pensem. Pensem. Contem até dez. Fechem os olhos. Agora pensem de novo. Busquem raciocinar o seguinte. A discussão não é se os presos merecem ou não sofrer. Compreendam. Pensem no mundo que está sendo criado. Já percebeu que, essa sua raiva que o cega, pode fazer com que o maior prejudicado seja você e seus descendentes?