O Gangsta Axé, as disputas no mercado de drogas, a polícia e os homicídios na Bahia
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O Gangsta Axé, as disputas no mercado de drogas, a polícia e os homicídios na Bahia

Bruno Paes Manso

13 Maio 2014 | 09h12

 

 

O vocalista do grupo Fantasmão canta e dança num clipe gravado na comunidade Roça da Sabina, em Salvador, cheio de ritmo mas com cara de bravo, entre bailarinos e crianças que fazem as coreografias típicas dos axés da Bahia*:

E a galera pega

castiga, maltrata e

Passa o rodo

Se der mole na quebrada

nego vai tomar um, tá ligado?

Porque malandro que é malandro respeita o bairro

Respeita o bairro.

Em outro show, o vocalista da banda de axé A Bronkka pede um dó ao maestro. O teclado começa a tocar afinado. Ele manda um beijo para a “linda prefeita de Petrolina” e passa a cantar a música “Dedo Calibrado”. No refrão, repete:

Por isso quando eu desço

É dedo calibrado É Sangue no olho

comigo é mais embaixo

Se é pra trocar vamos trocar, vamos trocar (tiros)

Se é pra trocar, vamos trocar vamos trocar“.

Já a banda Klak Bum, cujo nome significa o som de uma arma carregando e dando um disparo, envereda pelo proibidão no Carnaval baiano

Pega o prato

faz a linha

dá um tiro na farinha

se provou não aguentou

deu um tiro e espirrou

a da branca é um veneno

amarela é um terror

Acompanho um pouco do carnaval da Bahia desde os anos 1980, quando Luiz Caldas estourou com a música Fricote. Nunca soube dançar direito, mas fui a algumas festas de rua memoráveis, em carnavais com Olodum tocando Berimbau, Armandinho, Filhos de Gandhi, Carlinhos Brown, Chiclete com Banana e Asas de Águia. Se desse sorte, tinha canja de Caetano, Gil e covers de Dorival Caymmi, presentes também nos dias de hoje. As letras mais populares eram as maliciosas, como Rala o Pinto e Na Boquinha da Garrafa, essas dos anos 1990. Já as letras citadas acima fazem parte do contexto atual.

Em São Paulo, quando a violência explodiu no cotidiano, os jovens importaram o estilo hip hop dos Estados Unidos para desabafar e rimar a partir da realidade local. No Rio de Janeiro, inventaram o funk e o proibidão nos morros dominados pelos comandos. A violência na Bahia chegou mais tarde e se consolidou nos anos 2000, quando a dura rotina das vidas em disputa foi parar no axé, ritmo já antes consolidado para celebrar exclusivamente o bom astral baiano. Será que hoje a saudação “muito axé!” tem o mesmo significado?

Durante a década de 1980, a Bahia podia se orgulhar de ser um dos estados menos violentos do Brasil. Ficava na 23ª posição do ranking nacional de homicídios, com taxas europeias que variaram entre 3,3 e 4,9 homicídios por 100 mil habitantes. A situação começou a piorar principalmente na segunda metade dos 1990. O estado chegou em 1997 a 38 casos por 100 mil habitantes. Caiu bastante no final daquela década, mas degringolou no novo século. Em 2010, foi para a sexta colocação no ranking de homicídios, com 40 mortes por 100 mil. Quando o levantamento é entre jovens de 15 a 24 anos, o Estado fica na 4ª posição, com 83 mortes por 100 mil.

Existe um aspecto importante, pouco presente nos debates brasileiros sobre violência, mas que o caso baiano ajuda a confirmar. A disposição para matar decorre mais  das circunstâncias em que a decisão é tomada do que de uma cultura homicida. Em um território onde se mata muito, onde corpos amanhecem na rua, onde os amigos são mortos por rivais vizinhos, onde se ouve tiroteios com frequência, a propensão de alguém escolher um assassinato para lidar com determinados problemas é mais alta. A situação tensa, de desordem e tiros, induz à prática de assassinatos.

“Se é pra trocar, vamos trocar”, canta o músico baiano. Traduzindo sua estratégia, ele avisa aos potenciais inimigos que, se eles estão dispostos a matar, ele também está. Não se trata de uma cultura, mas de uma postura exigida pela situação violenta do cotidiano local, com predadores na vizinhança. Essa visão situacional de mundo se repete nos territórios que vivem crises epidêmicas de assassinatos. São discursos que ouço repetidamente quando falo com jovens nessa situação de extremo risco, vulneráveis aos assassinados. Muitos matam para tentar diminuir essa vulnerabilidade, que acaba aumentando.

Os homicídios, portanto, tem um efeito multiplicador que faz a epidemia se propagar. Homicídio provoca desejos de vingança e aumenta a propensão dos vizinhos aos assassinatos. Homicídios produzem homicídios. Quando eles cessam, a escolha assassina para de fazer sentido. Como vemos com as quedas bruscas que tem se repetido em diferentes cidades do mundo, depois de anos de epidemia.

Por que e como esse efeito multiplicador e a epidemia de assassinatos passou a contagiar os jovens baianos? O estudo dos professores Luiz Claudio Lourenço e Odiza Lines de Almeida (http://migre.me/jbaXB), apresentado em 2012 na Anpocs, ajuda a compreender melhor esse trajeto a partir da história da formação de duas facções locais, o Comando da Paz e o  grupo do Perna. A primeira surgiu no final dos anos 1990, quando passou pelo sistema local um integrante do Comando Vermelho. Inicialmente, tinha o objetivo de reivindicar melhorias para os presos, assim como o Primeiro Comando da Capital. No decorrer dos anos 2000, o CP passou a ganhar dinheiro com o comércio nas prisões e venda de drogas dentro e fora do sistema. O grupo do Perna surgiu de um racha do Comando.

Dessa forma, na Bahia, mesmo com o rápido crescimento do sistema prisional, que subiu 50% o número de vagas e 82% o total de presos entre 2000 e 2007, a violência continuou a crescer. É porque dentro das prisões alguns criminosos têm mais tempo e capacidade para tentar se organizar e liderar o comércio de drogas. O aprisionamento continuou. Em 2007, havia 8.260 presos, número que saltou para 13.150 em 2012. O aumento de 60% no total de prisões não desarmou os espíritos em conflito nas quebradas. Esses grupos disputavam mercado do lado de fora. O ambiente violento provoca vinganças e assassinatos em momentos tensos. Muitos passam a ser os motivos para matar.

A pacificação sempre costuma começar com a retirada das ruas de armas e dos homicidas contumazes, os chamados predadores, que são os matadores do bairro. São Paulo e Pernambuco usaram a tática, o que exige um mínimo de organização e diálogo entre polícia e judiciário local.

A Polícia e o poder judiciário baiano, segundo me relataram alguns interlocutores, ainda sofrem da herança coronelista de Antônio Carlos Magalhães. Falta profissionalismo, disposição e conhecimento técnico para lidar com essa missão. Sem falar que, em alguns casos, os próprios policiais são suspeitos de contribuir com a matança.  Considerando os casos das supostas resistências seguidas de morte (alegada legítima defesa), os policiais baianos mataram, em 2012, 354 pessoas, abaixo apenas de Rio de Janeiro e São Paulo, duas das polícias mais violentas do mundo.

A greve ocorrida este ano mostra o que o despreparo da polícia pode representar. Em 24 horas de greve, houve 39 mortes, sete vezes mais do que a média de anos da década passada. Houve comunicado da própria corporação para que os baianos não saíssem de casa. Muitos se perguntavam: os autores dos assassinados são os policiais a fim de pressionar o Governo ou os bandidos?

O que seria um escândalo, se transforma em mais uma pergunta sem resposta. Enquanto as polícias e o judiciário brasileiros não passarem por reformas.

Clipe do “Um tiro é sempre um tiro” – Klak Bum

Vídeo de Dedo Calibrado – A Bronkka

* Agradecimento especial a Renato Barreiro pelas dicas das múscias