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5 defeitos do projeto De Braços Abertos “A saúde pode afundar o projeto”, diz Dr. Dartiu, um dos idealizadores.

Bruno Paes Manso

27 Maio 2014 | 13h04

De um lado, ideias de vanguarda que apostam no diálogo e nos acordos entre poder público e frequentadores da cracolândia para encontrarem uma solução conjunta em benefício da cidade. São esses os pilares políticos do programa De Braços Abertos, relatados neste blog ontem em conversa com o prefeito Fernando Haddad. Do outro lado, no entanto, está a velha máquina municipal, uma burocracia ineficiente, lenta, distante das urgências da cidade. Novas ideias emperram nas velhas estruturas. Juntar as duas parece tarefa tão espinhosa como tentar rodar o jogo Need for Speed no videogame Atari.

É o que se conclui da conversa com o psiquiatra Dartiu Xavier, um dos idealizadores do projeto, que deixou a parceria com a Prefeitura em fevereiro. Ele ajudou a instalar o equipamento da Helvétia em julho do ano passado. Hoje ele está mais cético. A crítica principal de Dartiu aponta dois problemas: que 1) faltam equipes médicas para lidar com os atuais e futuros participantes do programa; 2) inexiste treinamento para que funcionários aprendam a trabalhar com a redução de danos. “A saúde pode afundar o projeto”, diz.

Não deixa de ser uma ironia. A nova proposta buscava justamente quebrar o paradigma sanitarista, que colocava o médico como o herói capaz de “salvar o dependente das drogas”, objeto passivo do tratamento. A política de redução de danos propõe o estabelecimento de acordos e transforma o usuário em sujeito. Só que há um porém. “O tratamento da saúde é fundamental para a realização dos acordos que o programa prevê. E isso não vem sendo feito”, diz um dos trabalhadores de saúde da região.

Outros problemas: 3) não existem levantamentos científicos capazes de identificar questões relacionadas à saúde daquelas pessoas, qual o tipo de dependência, as substâncias usadas; 4) alguns trabalhadores da saúde questionam também os dados apresentados no projeto, que visam passar uma imagem de sucesso que ainda não foi alcançada. Falta transparência e sobra intolerância a críticas; 5) Esses trabalhadores citam ainda a decisão de colocar um cercadinho para restringir o consumo das ruas como exemplo negativo. Os críticos dizem que a medida desastrada mostra como o diálogo com os frequentadores da cracolândia tem sido insuficiente.

O que se pode concluir de tudo isso?

Creio que não há dúvidas de que a ideia está conectada com as demandas em torno da melhoria da qualidade de nossa democracia. As instituições precisam conhecer as partes do conflito para conseguir solucioná-lo da melhor maneira. Há pouco espaço para decisões de cima para baixo. O programa De Braços Abertos trilha esse caminho. Ao propor o exercício do poder por meio do diálogo e dos acordos, consegue dar maior legitimidade às suas decisões.

Só que o programa ainda não se firmou. Falta apoio político e há críticas à forma como vem sendo executado. Antigos apoiadores estão desconfiados, apesar de apostarem nos princípios da ação. Creio que foi justamente por causa desse impasse que o prefeito me chamou. O objetivo era tentar dar mais visibilidade e apontar os fundamentos de sua política para a região.

Algumas pessoas me procuraram dizendo que faltou espaço para se apontar os problemas. Concordo. E espero que, com esse post, aqueles que fazem a crítica (aquela que vale a pena ser ouvida) tenham se sentido contemplados.