A saga das mulheres de caráter contra um Estado burro e cruel. Parte III – A epilepsia e o canabidiol
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A saga das mulheres de caráter contra um Estado burro e cruel. Parte III – A epilepsia e o canabidiol

Bruno Paes Manso

28 Abril 2014 | 09h53

O assunto parece diferente do abordado nos dois últimos posts, mas no fundo são muito parecidos. Veja acima a luta de Katiele para melhorar a qualidade de vida de sua filha Anny, de 5 anos. Eu assisti na quinta-feira, em um debate com um dos autores do filme, o jornalista Tarso Araújo. Muitos já viram. A história passou até no Fantástico. Mas acho importante chamar a atenção para o paralelo entre as sagas das mães. Assim como ressaltar o papel público que o jornalismo e as redes sociais podem desempenhar nos dias de hoje.

Anny sofre de epilepsia e desde os 45 dias de vida, chegando a ter de 30 a 80 convulsões semanais. Os pais tentaram de tudo para tratar da doença. Além de fisioterapia, anticonvulsivos diversos e até um implante cerebral. Os médicos, cuja sabedoria parece depender sobretudo das pesquisas feitas pelos laboratórios multinacionais e de seus remédios altamente lucrativos, não conseguiam ajudar.

Katiele encontrou pela internet um pai cujo filho tinha problema semelhante e que ensinava via Facebook, dos Estados Unidos, como usar o canabidiol (CDB), um derivado da Cannabis sativa, cujos bons resultados que já vem sendo estudado por pesquisadores da USP e médicos ao redor do mundo. O produto chegou a fazer as convulsões de Anny zerarem. Não produzia efeitos colaterais (só sonolência) e a vida da criança deu um salto de qualidade inigualável. Parecia um milagre.

Só que com a boa notícia aparecem os entraves e a luta kafkiana da mãe para importar a droga. O remédio, um óleo feito a base de um dos 80 princípios ativos da Maconha, era proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Vejam: a epilepsia não é um problema só de Anny e de sua mãe, Katiele. Atualmente, mais de 600 mil brasileiros têm a doença, que não tem tratamento eficaz.

No meio de toda essa luta, em janeiro, durante uma apuração para um especial sobre maconha, o jornalista Tarso Araújo descobriu a história. E prometeu a si mesmo que revelaria o caso e desencadearia uma campanha. Basta olhar no filme uma vez a criança no colo da mãe para se decidir o lado em que está. Katiele de repente se transforma em nossa própria família, pela verdade que representa e pelo significado das injustiças das quais é vítima.

Uma mulher de caráter, insignificante diante de uma máquina gigantesca, ineficiente, ultrapassada, confusa, ao mesmo tempo fria e inatingível, movida a papeladas e documentos sem sentido, atravancada, que não se renova, comandada por políticos que só pensam em conchavos para ter mais poder e ganhar as próximas eleições. Acho que compartilham minhas impressões muitos dos que foram às ruas em junho do ano passado, pedindo mais democracia e reforma política para podermos cobrar a prestação de contas e a transparência de um Estado que parece burro e cruel.

Tarso lançou seu documentário na internet no dia 27 de março. Foi replicado nos portais e a história de Katiele e Anny passou no Fantástico. No dia 3 de abril, veja só, a Justiça autorizou Katiele a importar pela primeira vez na história medicamento a base de derivado da maconha. No dia 22, a Anvisa informou ao jornalista que prepara uma protocolo para a importação do produto derivado da Cannabis. No sábado passado, Tarso estava na Marcha da Maconha. São muitos os assuntos transversais que esses garotos levaram à rua. Na frente da marcha, levantavam faixas e bandeiras mães e pessoas com problemas de epilepsia.