‘Resolvi jogar tudo para o ar e ter a bicicleta como casa’

‘Resolvi jogar tudo para o ar e ter a bicicleta como casa’

A história de uma viagem de bicicleta entre São Paulo e a Colômbia

Alex Gomes

25 Agosto 2017 | 08h00

Em setembro do ano passado, Leticia Correa, de 28 anos, contou aqui no blog sobre como a bicicleta lhe ajudou em um momento difícil e seus planos de fazer uma cicloviagem. Dessa vez ela conta a experiência de pedalar entre São Paulo e a Colômbia:

Oi gente. Pois é, minha cicloviagem rolou e foi repleta de coisas lindas! Já nos preparativos veio a primeira: conheci meu companheiro, o Carlos. Na época, ele percorria a América do Sul e conversávamos sobre equipamentos, rotas e experiências de estrada. Após meses de encanto nos encontramos e decidimos ficar juntos. Foi aí que resolvi jogar tudo pro ar e ter a bicicleta como casa.

Claro, tive medo. Mas foi a melhor coisa que fiz. Achava que não conseguiria acompanhar o Carlos, pois meu pedal era apenas nas ruas de São Paulo. Não treinava e nem colocava metas de quilometragem e velocidade. Só ia e voltava dos lugares para desfrutar o dia com amigos ou pensar na vida.

Em agosto de 2016 partimos de São Paulo rumo a Minas Gerais, um dos lugares mais bacanas para ciclistas que conheci, com várias estradas repletas de natureza. Percorremos uma rota de montanhas pela Estrada Real – o que me deixou feliz, mas acabada. Depois de Minas, pretendíamos ir de trem até o Espírito Santo, mas a companhia ferroviária nos impediu de levar as bikes, mesmo desmontadas e encaixotadas. Assim, tomamos o rumo do nordeste, pedalando até a Bahia. De lá giramos por Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba até o Rio Grande do Norte. Percorremos de ônibus o Ceará e chegamos ao Pará.

Exploramos Belém com nossas bicicletas e seguimos de barco pelo Amazonas. Foram 12 dias na floresta até alcançarmos a Colômbia. Nossa entrada no país vizinho se deu na cidade que leva meu nome, Letícia, na fronteira com Tabatinga, no Amazonas. A viagem seguiu em um avião de carga até Bogotá. Lá, recolocamos nossas bikes pra rodar e chegamos na cidade de Coguá. Foi amor à primeira vista e decidimos morar lá.

O percurso todo durou 5 meses e nossas bikes rodaram cerca de 2.800 quilômetros. Quanto as hospedagens, quase 80% foram em esquemas colaborativos, como o Couchsurfing e o Warmshowers. Uma das situações que mais me tocou foi em Conde, na Bahia. Estávamos em uma estrada que não tinha nada além de ladeiras e muito sol. Encontramos uma senhora muito linda que trabalhava em uma escolinha e ela nos ofereceu a casa na qual vivia com o marido, um artesão da cidade. A residência ficava em um terreno grande, com bosque e tudo.

Após um banho, Carlos e eu nos deparamos com uma mesa farta com ovos, cuscuz e frutas. ‘Amor, coloque tudo o que temos na mesa para nossos hóspedes’, dizia o marido. Passamos dois dias com o casal que nos tratou como filhos. Na despedida, uma choradeira só. Ficarei pra sempre com eles no coração.

Confesso que no início da viagem eu estava preocupada, com medo de roubos. Mas no decorrer do trajeto, somente coisas boas chegavam e assim me senti mais segura. Viajar de bicicleta me proporcionou uma vivência íntima com cada quilômetro rodado. Me ensinou a viver ainda mais o presente, de uma forma íntegra, sem pressa. Era comum girarmos 20 quilômetros e decidirmos na hora parar em um local. Pensávamos: ”Poxa, que lugar incrível. Ficaremos aqui. Está perfeito!’.

Conheci cidades com características que nem imaginava existir, com peculiaridades e costumes muito diferentes do que estava acostumada. E é impossível não interagir: seja nas paradas, quando as pessoas não economizam nas perguntas e fotos ao ver bicicletas cheia de coisas, ou quando cruzamos com outros cicloviajantes, cuja maioria, entretanto, não era brasileira. Topamos com ciclistas chineses, israelenses, argentinos e uruguaios, dentre outros. É aí que a magia me contagiou, pois conheci gente, contei minha história e conheci outras lindas.

Minha dica para quem pensa em fazer uma cicloviagem é carregar equipamentos de camping, pois em muitos lugares você não chegará a tempo de encontrar um local de hospedagem aberto. E não posso deixar de contar um ‘segredo’ dos cicloviajantes: a ajuda dos bombeiros. Eles são grandes parceiros. Sempre oferecem excelentes hospedagens, com ótimas camas e ar-condicionado e nos presenteiam com kits de primeiros socorros.

Vivemos atualmente em um sítio de montanha na cidade de Sopo, na Colômbia, no qual temos uma horta, uma vaquinha e duas cabritas. Carlos trabalha em uma multinacional e eu, como sou doula, atuo em um projeto de parto humanizado e classes de Yoga terapêutico. Meu próximo desafio é fazer uma cicloviagem com uma amiga colombiana. Queremos pedalar juntas, fazendo palestras e workshops sobre empoderamento feminino. Quem quiser e puder colaborar, me escreva: acasaleti@gmail.com.

Ah, e se algum de vocês resolver pedalar por aqui, nos avise. Recebemos cicloviajantes e mochileiros com o maior prazer 🙂 “

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