Mais um lembrete da barbárie no trânsito

Comentários sobre a morte do ciclista Gilmar Barbosa

Alex Gomes

31 Agosto 2017 | 12h30

Hoje São Paulo acordou com a horrenda notícia da morte de Gilmar Barbosa da Mata, atropelado enquanto pedalava na avenida das Nações Unidas em Osasco e arrastado no capô de um Renault Clio por 5 quilômetros, até ser abandonado no viaduto Cebolão, na capital.

A cada crime de trânsito como esse, sempre penso na minha própria condição. Há cerca de dez anos uso a bicicleta como meio de transporte, tendo girado quase todos os dias em São Paulo e algumas vezes em outras cidades. Mesmo seguindo regras de trânsito como não andar na contramão, obedecer semáforos e sinalizações, é difícil uma pedalada em que de alguma forma não sou agredido por um motorista ou motociclista. Seja verbalmente, com buzinas ou mesmo do jeito mais assustador, com fechadas ou com o veículo lançado sobre mim. Sempre sou lembrado da agressividade presente nas vidas da cidade, intensificada ainda mais nos últimos meses com o aumento em 75%  nas mortes de ciclistas na capital.

Provavelmente os ‘tribunais’ da internet, instalados principalmente em redes sociais, se esforçarão para jogar a culpa no ciclista, com os mais variados argumentos para apontar erros no seu comportamento. ‘Não deveria pedalar por ali’, ‘deveria tomar mais cuidado’, ‘ruas não são para bicicletas’ são alguns dos vereditos mais comuns em caixas de comentários. Quanto ao detalhe primordial em situações assim, a responsabilidade do motorista ou motociclista em conduzir respeitando as leis, tais tribunais se calam. O código brasileiro de trânsito é claro quando, no artigo 29, diz que ‘os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.

É uma questão óbvia. É muito mais fácil para o condutor de um automóvel ou motocicleta evitar um atropelamento do que um ciclista ou pedestre, já que veículos motorizados contam com inúmeros recursos de controle de direção e velocidade. Por mais equipamentos de segurança que um ciclista possua ou por mais regrado que seja seu comportamento, ele nada poderá fazer contra uma máquina de 2 toneladas lançada contra ele. Em outras palavras, é o agressor que tem mais condições e forças para evitar uma tragédia. Não a vítima.

E na tragédia em questão, em que o ciclista viveu uma situação de pânico por 5 quilômetros no capô do automóvel tentando salvar sua vida, cai por terra qualquer argumento de que o motorista não poderia fazer nada para ajudá-lo.

O incidente deixa, além da dor para familiares e amigos do Gilmar, mais uma evidência da necessidade urgente de mudança de comportamento no trânsito, com a real proteção dos mais frágeis. Se você dirige, faça um exercício: ao sair com seu carro, imagine todas as pessoas que cruzarem o seu caminho como seus parentes. Sua atenção e cuidados com certeza serão redobrados e, de quebra, você agirá ainda mais de acordo com a lei.

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