“Em um dos momentos mais difíceis a bicicleta foi meu melhor remédio”

“Em um dos momentos mais difíceis a bicicleta foi meu melhor remédio”

Pedalar como gesto de empoderamento

Alex Gomes

26 Setembro 2016 | 11h06

“Sou Letícia Correa, 27 anos. Quando procurei por minha primeira bicicleta, não sabia nada sobre bikes. Saí pesquisando a que achava mais bonita. Encontrei a de um rapaz que seria dada de presente à namorada. Porém ela terminou a relação e, para minha sorte, consegui um bom preço.

Foi minha primeira bicicleta: um lindo modelo urbano que chamei Frida. Nem sabia que começava ali uma transformação em minha vida e o quanto teria de lutar para ser uma ciclista em são Paulo.

Na época, trabalhava com o meu companheiro e morava em um prédio da Paulista. Lá, fui proibida de usar o bicicletário, apesar de existirem vagas. Eu morava no 19º andar e, apesar disso, também não permitiram que utilizasse o elevador de serviço. Não deixei por menos: procurei outros ciclistas do prédio, organizei petições e comprei uma briga com a direção do condomínio. O esfoço valeu a pena: foi construído um novo bicicletário e as condições para os ciclistas melhoraram. Mas não pude aproveitar essas conquistas: após uma agressão em meu relacionamento eu deixei o lugar.

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Tinha 26 anos e recomecei do zero. Desempregada, voltei à casa dos meus pais. Tinha apenas uma mochila e a Frida. Entrei em depressão. Meus pais, como o de muitos em situações assim, queriam que eu tomasse antidepressivos. Recusei. Em vez disso, transformei a bicicleta no meu remédio. Virou minha melhor companheira. Passei a pedalar para pensar o que fazer da vida e para não ficar em casa esperando a tristeza chegar. Girava muito, a ponto de, no fim do dia, cair de sono de tão cansada. Eu, que antes só pedalava na ciclovia da Paulista e me achava uma atleta, agora fazia em média uns 30 quilômetros por dia.

Foi aí que descobri os bike courriers, entregadores que percorrem a cidade inteira de bicicleta, e as coisas começaram a melhorar. Comecei a fazer entregas de flores, conheci pessoas e aos poucos consegui me reeguer e voltar a trabalhar com a gastronomia. Enquanto juntava dinheiro para recomeçar a vida me aprofundei no universo da bicicleta, conhecendo gente, pedalando, viajando e entendendo mil coisas novas. Novos projetos surgiram e minha amada Frida já não conseguia mais me atender. Montei uma outra bicicleta, escolhendo cuidadosamente peça por peça. Daí surgiu a Girassol, minha nova companheira de aventuras.

É muito legal ver tudo o que se fala sobre bicicleta na cidade. É emocionante quando as pessoas me pedem ajuda, dicas e conselhos sobre bikes. Em um mês, cheguei a levar quatro pessoas a uma bicicletaria. A bike, para mim, virou muito mais do que artigo esportivo ou de lazer. É filosofia de vida, instrumento de superação e empoderamento feminino.

Recentemente, fiz minha primeira cicloviagem: fui de São Paulo a Minas. No percurso, muitas montanhas e muito medo de não conseguir. Porém, nessas horas difícieis, sempre aparecia um amigo para me motivar. Também olhava histórias de ciclistas acostumados a percorrer o país. Começo agora em setembro uma nova experiência: irei pedalando até a Colômbia com um amigo que chegou de lá após pedalar pela América Latina.

Olhando para a situação de São Paulo, sei que aumentou o número de mulheres pedalando, mas ainda quero ver mais. Me sinto muito feliz e empoderada em cima da Girassol. Estou parecendo uma religiosa dando testemunho de vida, mas estou sendo sincera: a bike mudou a minha vida. Se isso não for empoderamento feminino meu bem, desculpe, não sei então o que é. #mulheresquepedalam #mulheresqueviajamdebike #mulhernopedal #mulheresempoderadas “