Um andarilho russo em São Paulo

Estadão

28 Maio 2009 | 01h16

Por Edison Veiga

Há quase um ano o jovem russo Andrej Raider, de 23 anos, está caminhando. Depois de percorrer 3 mil quilômetros cruzando mais de 200 cidades, ele chegou a São Paulo. “Se conseguir trabalho por aqui, fico um ou dois meses”, diz.

Raider iniciou sua volta ao mundo a pé na França, em julho do ano passado. Lá, passou dois meses e meio caminhando pelas cidades e conhecendo a cultura local, novas pessoas e o idioma. Depois ficou quatro meses na Espanha, onde trabalhou, fez amigos e aprendeu a língua. Em Portugal, permaneceu por outros três meses.

Foi quando tomou um voo para o Brasil. Desembarcou no dia 17 de abril no Rio de Janeiro, de onde começou uma caminhada, pelo litoral, até São Paulo. Daqui pretende seguir para Curitiba.

O andarilho russo planeja continuar sua jornada pelos próximos seis anos. Para se hospedar, Raider utiliza o CouchSurfing, um site de relacionamentos onde os usuários disponibilizam suas casas para receber estrangeiros gratuitamente, com o objetivo de conhecer outras culturas e idiomas.

Em São Paulo, ele foi abrigado por Steven Beggs, o CEO da escola Seven Idiomas. Como forma de retribuição pela hospedagem, Raider deu três palestras aos alunos de inglês e espanhol da escola, contando sobre seu projeto de caminhar pelo mundo. Ele atendeu à reportagem do Estado para uma breve entrevista.

Por que você decidiu caminhar, a pé, por todo o mundo?

Minha vida era uma rotina. Um dia percebi que estava fazendo as mesmas coisas, encontrando-me com as mesmas pessoas, tendo as mesmas discussões, vivendo as mesmas situações. Era uma vida sem desafios, uma vida “normal”. Em breve, eu não me sentiria mais vivo. Fazer uma volta ao mundo, a pé, era um sonho grande de um menino que queria aprender e conhecer tudo o que existe no planeta. Este menino foi (e sou) eu. Também caminho para a paz. Porque a paz é a experiência mais constante que experimento ao longo desta viagem. Paz é tudo o que eu quero dar.

O que a sua família pensou quando você decidiu botar em prática esse projeto?

Não sou casado, nem tenho filhos. Tenho uma irmã que é minha melhor amiga e tenho pais fantásticos. Meus pais dizem: “claro que ficamos preocupados, mas se você acredita que este é seu caminho, vá.” Minha mãe diz que eu tenho que fazer isto, se posso, porque a experiência que adquiro andando ao redor do mundo é enorme e tem muito valor. Eles também dizem: “se um dia achar que não consegue mais, volte”.

Você mantém contato com eles? Como?

Pela internet. Antes, às vezes minha família me ligava no celular. Mas perdi meu telefone em Caraguatatuba, acredito. E, no momento, estou sem dinheiro suficiente para comprar um novo.

Já conhecia São Paulo?

Não. É minha primeira vez em São Paulo, primeira vez no Brasil, primeira vez na América do Sul. É um mundo novo para mim. E eu amo este mundo.

O que mais o impressionou na cidade?

Fiquei impressionado com o tamanho. Impressionado com todas as possibilidades e pessoas diferentes. Parece-me um lugar multicultural, e isto me agrada mais. O que não me encanta é a agitação. Quando estou caminhando, preciso de tranquilidade. E a agitação das cidades grandes me “infecta”, me faz mal.

E do Rio de Janeiro, o que achou?

Quando cheguei ao Rio, estava muito nervoso. Tinha medo de todas as favelas… Mas nada aconteceu. Realmente, não é igual ao filme Cidade de Deus. O Rio é uma cidade maravilhosa. Gostei muito da sua natureza e de suas praias.

Quanto tempo pretende ficar por aqui?

Estou buscando trabalho. Se encontrar, quero ficar aqui um ou dois meses, para ganhar um pouco de dinheiro antes de seguir viagem. Também é possível caminhar sem dinheiro, mas é mais difícil. Se não encontrar trabalho, pretendo ir já no sábado ou no domingo.

Como se preparou para começar esse seu projeto de viagem?

Desenhei uma linha vermelha no mapa-múndi, comprei sapatos, preparei minha mochila e comecei.