Quando o relógio dos peixes para de funcionar

Estadão

16 Novembro 2009 | 11h53

FOTO: Robson Fernandjes/AE

Por Rodrigo Brancatelli

Desde que Evaldo Bizarrias trocou sua profissão de ourives no centro da de São Paulo para viver longe “de tudo e de todos”, à beira da represa Billings, na extrema zona sul da cidade, sua rotina é ditada pelo relógio dos peixes. Funciona mais ou menos assim há quase 18 anos – às 17 horas em ponto, em um ritual seguido todo santo dia, ele desce a escadinha de cimento nos fundos de sua casa, monta em seu pequeno barco e segue para descer suas redes. Às 5 horas da manhã, faz o mesmo percurso para conferir o que pescou. Nesse meio tempo, conta apenas com a sua fé para rezar por quilos e mais quilos de tilápia, carpa, lambari, traíra e bagre, único sustento da sua mulher e seus dois filhos pequenos.

De um ano para cá, porém, os peixes sumiram. Suas redes, ao invés de pegar as tilápias gordas da região, agora pesca apenas um lodo escuro e viscoso que parece óleo de automóvel. E sem o relógio dos peixes para ditar a rotina, Bizarrias simplesmente não sabe mais o que fazer da vida.

“O rendimento aqui caiu 80% de uma hora para a outra”, conta, mostrando suas redes pintadas de preto, cheias de lodo. “Pegava 80 quilos por dia, hoje não dá nem 9, 10. Parece que tudo está desequilibrado por aqui, posso ficar até 18 horas no barco tentando pescar mas não consigo nada.”

FOTO: Robson Fernandjes/AE

O pescador e ex-ourives de 36 anos mora na divisa da capital com São Bernardo do Campo, em um lugar conhecido como Ilha do Bororé (apesar de não ser uma ilha propriamente dita, mas sim uma península, onde é possível chegar por meio de uma balsa que sai do Grajaú de meia e meia hora). Dos 2.800 habitantes da região, pelo menos 144 famílias são sustentadas pelos peixes da Billings.

As hipóteses são várias – desde o processo de limpeza da represa até a proliferação de algas e os efeitos da construção do Rodoanel. Só não há ainda conclusões, nem mesmo soluções para o problema.

FOTO: Robson Fernandjes/AE

O assunto da falta de peixes acabou dominando todas as conversas. A ilha é assim, um lugar quieto, lento, onde a televisão é item de luxo e as pessoas ainda se encontram nos portões para jogar conversa fora. Ali não há farmácia ou padarias, apenas casas de alvenaria com a pintura já descascada e bares, muitos bares. Os carros não passeiam com tanto freqüencia, as pessoas falam mais calmamente e o tempo parece passar um tantinho mais devagar.

Isso não impede Bizarrias de atropelar as palavras para falar da escassez do produto mais conhecido da região. “Os pescadores daqui são humildes, analfabetos, só sabem armar rede”, diz. “Sem os peixes, desaparece todo o sentido da vida deles.”