Para terminar a “relação” com o cigarro, 30 anos

Estadão

11 Novembro 2009 | 17h19

Por Fernanda Aranda

O fumante de São Paulo leva 30 anos para procurar ajuda e largar o vício. A “sentença” é resultado do cruzamento, feito pelo Blog da Metrópole, de dois levantamentos divulgados recentemente pela mídia. Um deles, do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod) mostrou que 64% dos paulistanos começam na rotina das baforadas antes dos 15 anos. O outro, do Sistema Único de Saúde (SUS), indica que 62% só ingressam nos programas de tratamento após os 45. No vácuo entre uma ponta e outra, doenças, desempenho sexual comprometido e, mais recentemente, a “patrulha” da fumaça, já que o cigarro foi banido por força da lei dos ambientes internos de qualquer local do Estado de São Paulo.

É aí que entram as conspirações sobre os efeitos da lei antifumo no futuro do fumante. Será que a legislação, que transformou em contravenção qualquer cigarrinho após o café, consegue diminuir a distância entre a primeira tragada e a procura por ajuda especializada? Os especialistas apostam no “sim”. Dados dos programas antitabagistas, como do Hospital do Coração, do Instituto do Coração e do A.C Camargo, indicam, por ora apenas em estimativa, um acréscimo de 30% entre os inscritos para tentarem parar de fumar. A evidência da dependência da nicotina, dizem, fica mais nítida quando em um restaurante a pessoa precisa deixar o lugar algumas dezenas de vezes para saciar a vontade do cigarro. Por isso, mais pedidos de ajuda para cessar a dependência seriam consequências.

Mas tal impacto em deixar ou não de fumar é o que se mostra ainda mais distante. O comportamento da cidade oferece termômetro mais concreto para medir os efeitos da legislação. Os números oficiais mostram adesão de 99%, já que entre os mais de 110 mil estabelecimentos fiscalizados nos três meses de vigência da lei, apenas 405 foram multados por não eliminarem o fumo e fumódromo. Não são os únicos exemplos, nem os mais interessantes, vale lembrar. A “balada” está nas calçadas e a paquera também. Na Rua Augusta, a “fauna urbana” que frequenta a via não está mais escondida nos bares. As mesas e cadeiras ficam vazias após os copos de cerveja serem consumidos. Os cantinhos escuros também. Todo mundo do lado de fora até altas horas, mostrando que a cidade que não dorme nunca, de fato, sofre de insônia.

Outra sequela é retratada pelo restaurante Forneria San Paolo, na chique Rua Amauri – zona sul paulistana. Lá, a evidência de mudança de comportamento trazida pelo cerco ao cigarro é medida pelo relógio. Quando o cliente é fumante, os maîtres precisam repensar o tempo entre a entrada, prato principal, sobremesa e café. Com a necessidade de levantar e sair durante a refeição, é preciso esticar um pouco mais o intervalo entre um e outro. Caso contrário, a comida esfria. E trazer o café é ter a certeza que, imediatamente, a pessoa vai embora.

Nem tudo são flores na São Paulo sem tabaco. A casa Sonique, no centro, sentiu primeiro no bolso o feito de um ar mais limpo. O movimento e faturamento caíram 25%. Só agora os fumantes mais raivosos topam sair sem a companhia do fumo.