Nos bastidores da São Paulo Fashion Week

Estadão

22 Junho 2009 | 15h28

Por Valéria França

Mesmo diante das apostas de que a crise também assolaria a maior semana de moda do País, esta edição, além de revigorada, foi a mais agitada da São Paulo Fashion Week dos últimos tempos. Além dos 40 desfiles programados de lançamento das tendências, o evento abriu espaço para outras expressões, como exposições, shows, palestras e até mesmo festas dentro e fora do prédio da Fundação Bienal, no Parque do Ibirapuera. Isso quer dizer que não só as figuras consagradas estavam lá mostrando o seu trabalho ou participando de algum modo. O evento está mais democrático.

Só para dar uma ideia, ontem, além dos sete desfiles do calendário, duas apresentações e uma palestra aconteceram ao mesmo tempo em que rolava a programação oficial do evento. A francesa Sakina M’Sa, por exemplo, coordenou um desfile com os modelos de roupas feitos pelos alunos da Faculdade de Moda Anhembi Morumbi e por costureiras de uma Ong de Campo Limpo, bairro da zona sul da cidade. Eram roupas desconstruídas, ou seja, daquele tipo nada comercial – que muitos não entendem, tamanha a originalidade.

O que se viu foram batas com golas sobrepostas, vestidos assimétricos, vestidões com muito volume. A mensagem foi clara: a criatividade na moda não depende necessariamente da formação acadêmica. As costureiras, muitas desempregadas de Campo Limpo, arrasaram com seus modelos nos corredores.

Mário Queiroz, estilista e professor de moda, trabalhou durante três meses com 60 estudantes para montar o desfile de ontem. Os alunos fizeram da maquiagem das modelos ao som da passarela. Além da apresentação convencional, o estilista também lançou a coleção de underwear, num pequeno evento paralelo, que de tão paralelo foi no backstage. Os modelos ficaram de cueca, encolhidos de tanto frio, ao lado das araras. E o camarim se encheu de pessoas interessadíssimas no lançamento.

FOTO: André Lessa/AE

Sem estofo financeiro para organizar de fato um desfile ali, Marcelo Sommer, um dos estilistas resistentes da moda, que acompanha a São Paulo Fashion Week desde os primórdios, conseguiu um jeitinho para ao menos passar o conceito do que será sua coleção, que chega às lojas em setembro. Trouxe para a Bienal a banda Stop Play Monn (foto acima), da vocalista Gianine Marques. Ele resumiu tudo em quatro roupas que vestiram os três integrantes da banda, além da convidada especial modelo Luciana Curtis. “Ela vai usar o vestido que resume o espírito da minha coleção”, disse, um dia antes do show. E ontem lá estava Luciana Curtis, tímida, num palco improvisado no corredor do primeiro andar, de back vocal, usando um vestido multicolorido e bem rodado.

FOTO: Carlos Pupo/AE

Feito para profissionais da área e fechado ao público em geral, o evento dessa vez interagiu com a cidade. Cavalera transformou, na manhã de ontem, o Minhocão (foto acima) numa extensa passarela, por onde passaram 65 modelos – mas 15 deles eram paulistanos comuns que ajudaram a dar o clima, como um skatista no estilão Bob Marley e uma bebê loirinha de um ano. Além das roupas confortáveis, jovens e coloridas, o desfile mostrou como a área pode ser melhor aproveitada.

Apesar do sol e das modelos lindíssimas, o desfile não causou tanta curiosidade no público em geral como se esperava. Foram poucos os moradores que apareceram nas janelas. Houve até quem achou que seu quintal estava sendo invadido, e como forma de protesto colocou nas janelas caixas de som tocando um forró bem alto.

Para a sorte de Igor Hiar, o Turco Louco, dono da marca, o som do desfile saiu de quatro carros tunados, contratados para estacionarem em cima do Minhocão. Com eles, o forró desapareceu. “Gastei R$ 50 mil para equipar meu carro”, diz Anderson Regis, de 30 anos, dono de um Peugeot 2002 turbo. “Tenho um sistema de som digital 5.1 dolby digital.”

FOTO: Hélvio Romero/AE

O desfile foi, ao mesmo tempo, quase um presente para a família de Ana Zélia Rodrigues da Silva (foto acima), uma técnica em segurança, que veio de Carajá do Pará há um ano para tratar o câncer do filho caçula Gabriel Vinicius. “Diferente da minha terra, o lazer em São Paulo é muito caro. O cinema lá custa só R$ 4. Aqui é R$ 15 uma entrada. Não dá para sair muito.” Quando soube do desfile, Ana foi para a sacada do apartamento alugado na Avenida São João, no centro, e ficou lá com os dois filhos esperando a apresentação. “Nunca vi gente tão bonita na minha vida. É primeira vez que assisto a um desfile.”