Muitos trotes. E até partos por telefone

Estadão

09 Junho 2009 | 08h15

FOTO: Ernesto Rodrigues/AE

Por Edison Veiga

A soldado Rosane Alves de Lima, de 39 anos, não vai se esquecer do dia em que “fez” um parto por telefone. Foi no começo do ano passado e ela era uma dos cerca de 100 policiais escalados para o turno do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), no Bom Retiro – metade no atendimento do 190, metade no despacho das viaturas. “Um homem ligou desesperado porque sua mulher estava entrando em trabalho de parto e não tinha como chegar até o hospital”, conta. “Fui dando as orientações. Fiquei muito emocionada quando ouvi o choro do bebê.”

Apesar de essa não ser a função principal do serviço 190, criado em 1981 com o objetivo de receber solicitações das pessoas e enviar policiais para atender às ocorrências, histórias de ajuda por telefone são relativamente comuns. Desde uma informação simples (“Quando acaba o horário de verão?”, “Qual o telefone da delegacia mais perto de minha casa?”, etc.) até partos e salvamentos. “Há uns três meses tive de orientar os familiares a realizar os primeiros socorros em um adolescente que sofria de convulsão”, diz a soldado Elizabeth Victoria Kalinauskas, de 39 anos.

Por dia, o 190 paulistano recebe 35 mil ligações. Apenas 13% geram ocorrências – ou seja, disparam para o local uma das cerca de 1,8 mil viaturas que circulam simultaneamente na capital. Ligações não concluídas representam 31% e pedidos de informações e orientações são 30%. Cerca de 5% são direcionadas aos bombeiros – atualmente, os sistemas são interligados e o telefonema é transferido como se fosse um ramal. E, infelizmente, 21% são trote. Você leu certo. São mais de 7 mil trotes por dia, cerca de 300 por hora. “De acordo com o Código Penal, é crime”, afirma o chefe do Setor de Atendimento 190, tenente Cleodato Moisés do Nascimento. “Mas se formos atrás de todos os casos, a polícia vai parar só para fazer isso. Então pegamos apenas os mais abusivos.”

Quando alguém liga para o 190, é atendido por um soldado ou cabo – patentes menos graduadas na hierarquia da PM. Cada atendimento leva, em média, até três minutos. Um superior – geralmente um sargento – pode intervir em casos que demorem mais tempo.

O policial atendente cria um documento eletrônico que é encaminhado, on-line, para a sala ao lado, onde fica o setor de despacho. Ali, cada canto representa uma região da cidade – e cuida das viaturas em ação naquela área. Assim os deslocamentos das viaturas são organizados da maneira mais eficiente. “Os policiais que trabalham neste setor são verdadeiros psicólogos”, acredita o tenente. “Eles salvam vidas por telefone e não têm noção disso.”

FOTO: Ernesto Rodrigues/AE

Nota do autor: No início do ano, dediquei-me por quase um mês à elaboração de um caderno especial em comemoração ao aniversário de 455 anos de São Paulo. Entretanto, por causa do número de páginas do suplemento, nem todas as reportagens que produzi foram publicadas. Pretendo colocar algumas delas, inéditas, neste espaço.