“Meu primeiro potro morreu antes de eu conseguir acabar de pagar suas parcelas”

Estadão

17 Maio 2009 | 19h51

Por Edison Veiga


FOTO: Evelson de Freitas

Ontem o Estado publicou uma entrevista com o empresário Márcio Toledo, 49 anos, presidente do Jockey Club de São Paulo. Às vésperas do Grande Prêmio São Paulo, ocorrido há pouco com premiação recorde, Toledo falou sobre a história de que o clube pode ser desapropriado pela Prefeitura e a enorme dívida de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Durante a conversa, ele também contou algumas curiosidades sobre como se tornou presidente da entidade e um pouco de sua vida estudantil. Confira a seguir:

É verdade que o senhor se tornou sócio do Jockey após comprar, meio sem querer, um potro puro-sangue inglês?

Eu nasci no interior (em Indaiatuba) e ainda criança tinha uma relação com o cavalo. Sempre foi meu bicho preferido, desde menino. Com 4 anos de idade eu montava uma eguinha que ganhei e tal. Mas aos 8 anos, quando me mudei para São Paulo, acabei me distanciando dos cavalos. Isso começou a mudar no momento em que eu estava saindo da universidade (Toledo é graduado em Direito pela PUC e Jornalismo pela USP), quando eu tinha meus 24 anos e fui com um grupo de amigos a um leilão do Jockey.

Pensavam em comprar algum animal?

Não. Fomos mais pelo aspecto social mesmo. Um de nossos acompanhantes, entretanto, achou bonito, interessante, charmoso dar um lance em um animal. Ele não imaginava que seu lance seria o único. Só que ficou nele. E o leiloeiro disse: “vendido para o cavalheiro”. O leiloeiro, aliás, é até hoje o nosso principal leiloeiro, mas talvez não se lembre dessa história.

E aí acabaram levando o cavalo?

Meu amigo hesitou, ficou em dúvida se era seu mesmo o lance. Então eu disse: “não vamos passar vergonha; vamos comprar o potro”.

Era muito dinheiro?

Para nós, sim. Estávamos saindo da universidade e tínhamos pouco dinheiro. Uma dificuldade enorme. Aí resolvemos fazer uma vaquinha, mas todo mundo saiu fora. Eu decidi bancar e ficou para mim.

Passou então a participar da vida do Jockey?

Foi quando começou uma nova história, porque eu não sabia como era ter um cavalo, como fazer e tal. No dia seguinte fui lá para fazer o primeiro pagamento (o potro foi comprado em 12 parcelas). Aí já me mostraram que além daquele preço havia ainda as taxas do leiloeiro. O bolo cresceu, mas eu decidi que iria até o fim. Tinha responsabilidade. Então um treinador do Jockey disse que o potro era muito novo para ficar no clube. Precisava primeiro deixá-lo em um haras. Encontrei um em Jaguariúna e acertei para o potro ficar lá. Todo fim de semana eu ia visitar o potro.

Isso durou muito tempo?

Passados quatro ou cinco meses, a dona do haras me ligou com uma notícia triste. O meu potro havia falecido. Obviamente que eu fiquei triste também, afinal tinha pago apenas quatro parcelas e me envolvido em toda essa história.

Ficou com as parcelas para acabar de pagar…

Sim, paguei até o final. E pensei que isso não poderia me fazer desistir de ter um cavalo para correr no Jockey. Quando disse ao meu amigo, aquele que deu o lance, ele comentou que a situação era tão triste como aquela música do Chico Buarque (Pedaço de Mim), na qual ele canta que “a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Afinal eu estava pagando as parcelas do potro “que já morreu”.

Nessa época o senhor já havia se associado ao Jockey?

Não. De 1985 para 1986 eu comprei algumas éguas. Aí começa minha história no Jockey. Eu me associei de fato entre 1990 e 1991, já proprietário de cavalos e envolvido no meio.

O senhor é graduado em Direito e Jornalismo. Por que a dupla escolha?

Ao longo do ginásio e no início do colégio, queria ser engenheiro, estudava para isso. Sonhava ingressar na Poli (Escola Politécnica, da USP) ou no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica, localizado em São José dos Campos). No 2º ano do colégio, um professor de Literatura mudou minha cabeça. Eu me fascinei, comecei a escrever, olhar mais o mundo das artes… Tirei para mim que queria fazer Jornalismo. Meu pai me alertou para as dificuldades e propôs que eu cursasse Direito ao mesmo tempo.

No fim, acabou não exercendo nem uma coisa nem outra…

Sim, quando me formei, não pensei nem em ser advogado nem em ser jornalista. Nunca exerci nenhuma dessas duas carreiras, embora eu aplique o que aprendi em meu cotidiano. Decidi ser empresário. A primeira empresa que montei, com um grupo de pessoas que estudaram engenharia, era da área de construção civil. Nossa especialidade era construir escolas. Eu era o diretor financeiro. Fiquei lá até 1986, quando me desliguei para morar em Roma (na Itália), onde fiz um curso de pós-graduação.

E quando fundou sua empresa atual?

Logo que voltei de Roma. Minha empresa, a Interbanc, foi criada em 1988. É uma empresa de investimentos que tem participação em diversos negócios. O principal é a Global Telecom, que presta serviço na área de telecomunicações.