Lygia Fagundes Telles, no CT do São Paulo: “Os jogadores caem como bailarinos”

Estadão

25 Novembro 2009 | 06h37

FOTO: José Patrício/AE

Por Filipe Vilicic

“A Lygia veio”, exclamou o desembargador José Renato Nalini, presidente da Academia Paulista de Letras (APL), na tarde da última quinta-feira. “Faço questão de recebê-la.” Ele e seu colega, o jurista Ives Gandra da Silva, se dirigem à entrada do restaurante do Centro de Treinamento do São Paulo para abrir as portas à escritora, autora, entre outros, do livro As Meninas. Lygia Fagundes Telles, que machucou a perna esquerda em uma queda, está de bengala e vem acompanhada de sua neta, que olha, desconfiada, para o jornalista que logo senta ao lado da poltrona onde a escritora se acomodou.

FOTO: José Luís da Conceição/AE

Na sala, há outros dez acadêmicos, além de dois dirigentes do São Paulo e assessores de imprensa. E todos olham para Lygia (ao centro, na foto acima), que sentou, sem querer, no lugar onde estava o engenheiro Milton Vargas, o mais velho membro da APL, com 95 anos, que, cavalheiro, se dirigiu para outro assento. O jornalista, este que escreve, está ao lado da romancista e cronista, pensando: “a fortuna está ao meu lado, pois ela veio.” “Lygia é, sem dúvida, uma das mais importantes entre os acadêmicos”, afirma, com toda razão, o presidente Nalini.

Pudera, a escritora de 86 anos tem no currículo prêmios como um Jabuti e um Camões, espécie de Oscar da literatura em Língua Portuguesa. Além de integrar a APL, é ainda da Academia Brasileira de Letras. Acrescente que apenas onze dos 40 acadêmicos da APL publicaram romances, como ela (a maioria se especializou em livros técnicos ou didáticos, a exemplo dos de Direito).

E o jornalista lá, ao lado de Lygia, a cumprimenta e faz a primeira pergunta, para uma reportagem sobre os 100 anos da academia:

– O que a senhora acha de terem transferido as reuniões internas e de portas fechadas da APL para eventos externos (antes, as sessões só ocorriam na sede no Largo do Arouche)?

E ela, que olhava pela janela um campo de futebol, responde, mudando de assunto:

– Por que quando os jogadores caem eles não quebram a perna, como ocorreu comigo?

– Acho que eles treinam muito.

– Deve ser também porque eles são jovens.

– Sim. E eles sabem como devem cair, não?

– É. Eles caem como bailarinos. Como bailarinos.

FOTO: Ernesto Rodrigues/AE

Lygia se encanta com a nova descoberta. Chama cada acadêmico e cada assessor que passa em sua frente para contar. Na reunião da APL, minutos depois, faz questão de expor sua teoria a todos. Duas vezes. Lygia, uma das mais importantes escritoras do Brasil, se admirou por ter percebido que jogadores caem como bailarinos.

A APL completa 100 anos na próxima sexta. Caso queira passar uma noite com os acadêmicos, o aniversário será comemorado em uma festa aberta amanhã, dia 26, a partir das 18h30, no teatro do Ciee (Rua Tabapuã, 445, Itaim). Haverá pronunciamentos – como um do decano da academia, o poeta Paulo Bomfim, de 83 anos, empossado em 1963 – e um concerto regido pelo maestro João Carlos Martins. Para participar, é preciso se inscrever pelos telefones 3040-6541 ou 3040-6542, ou pelo site.