Jeferson, Tony, Júlia e Bidu

Estadão

25 Novembro 2009 | 17h01

Por Fernanda Aranda

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou pesquisa anteontem e, mais uma vez, deu munição para qualquer um poder atestar que violência e juventude caminham juntas. Os números só reforçam que homicídio, acidentes de trânsito, suicídios e agressões costumam fazer parte da estrada de quem ainda não completou 25 anos. A boa notícia – para quem insiste em enxergar com olhos otimistas – é que a capital São Paulo desponta como o “local mais seguro” para os meninos e meninas. O que reflete um acerto de políticas públicas, talvez também seja espelho da disparidade das vivências de Júlia, Tony, Jeferson e Bidu, só para dar exemplos. Durante a última semana, o Blog da Metrópole esbarrou com as histórias destes personagens da cidade na produção de diferentes reportagens. Se eles tivessem participado da pesquisa do Fórum poderiam ser dois lados de uma mesma moeda que é a desigualdade paulistana.

Jeferson, 16 anos
Ainda é impossível publicar aqui sua identidade verdadeira. Com 16 anos recém completos, ele vive na linha imaginária, muito comum de ser enfrentada na periferia. Se escorregar, cai na criminalidade. Se não vacilar, vive “suave”, “na boa”. Manter o equilíbrio é seu desafio diário. Mora em M’Boi Mirim, extremo da zona sul, onde residem também os maiores indicadores de vulnerabilidade, desemprego e gravidez na adolescência. Ele já esmolou em semáforo, pegou em armas, assaltou, pediu, furtou. Quer trocar os verbos que servem para escrever a sua história. Quer estudar, trabalhar, namorar e presentear – sempre que o Natal fica próximo, ele enfrenta a vontade de comprar prendas para sua família e sempre, no Ano Novo, precisa enfrentar a frustração de não ter conseguido. Se olha para seus exemplos encontra um pai que nunca teve carteira assinada, sempre trabalhou 14 horas por dia e nunca “melhorou a vida”. Mas com ele será diferente, diz com fé. Faz um tempo que Jeferson pende para o “lado legal” da linha imaginária e caminha certinho. Se tudo der certo em sua jornada, ele vai alcançar o sonho (que ainda parece difícil) de ser operador de telemarketing.

Tony Marlon, 25 anos
Veio de Minas Gerais e ainda pequeno encontrou abrigo no Campo Limpo, também periferia da zona sul, onde cresceu e estudou. Poderia ter se rendido a todos os clichês de quem mora nesse local. Mas a trilha tida como certa nunca deixou de ser sedutora. Já a violência se mostrava complexa demais. O jeito foi estudar. Apaixonou-se pela educação. E resolveu investir nessa paixão. Engajou-se em vários programas sociais. Em um deles, conseguiu interferir em uma das economias mais estruturadas do Guarujá: o tráfico de drogas. Tá certo que foi muito rápido. Só 45 minutos. O tempo que o chefão e todos os aviõezinhos deixaram seus postos na favela em Vicente de Carvalho para ajudar Tony a construir um parquinho de pneus velhos para a comunidade local. Por 2.700 segundos, ninguém comprou nem vendeu cocaína, crack ou maconha por lá. Se tudo der certo em sua jornada, ele vai alcançar o sonho (que ainda parece difícil) de conseguir a mesma proeza por mais tempo e em outras comunidades

Júlia Toro, 24 anos
Sempre morou em São Paulo. Aclimação e Vila Mariana, áreas nobres da zona sul. Nunca cruzou com a violência extrema. Assalto, sequestro, homicídio eram restritos aos jornais, programas de TV, cinemas. Júlia poderia continuar de olhos fechados para este lado do mundo. Dificilmente seria atingida. As barreiras de uma família estruturada e boa condição financeira costumam blindar a criminalidade. Estudou moda e fotografia. Poderia ter se rendido a todos os clichês de quem resolve seguir esse caminho. Mas ela, sem querer ser heroína, só resolveu reverter parte do seu conhecimento para ensinar autoestima e um ofício para uma turma que não nasceu com as mesmas oportunidades que para ela vieram de graça. Um dia, o Felipe, de 14 anos – que foi um dos seus alunos/companheiros em uma das oficinas – largou o tráfico e voltou a estudar. Se tudo der certo em sua jornada, Júlia vai alcançar o sonho (que ainda parece difícil) de conseguir o mesmo efeito com outros “felipes” – e não desanimar com os outros tantos que não mudam o rumo, apesar de toda a sua força de vontade.

Bidu, 12, 13 ou 14 anos
Quando ele foi preso a primeira vez, tinha 13 anos. Ou talvez, 12. Ele nunca contou. Talvez porque nunca tenha tido uma festa de aniversário. Ele já foi preso em outras inúmeras ocasiões. Como sempre vai para Febem (Fundação Casa) sabe que ainda não chegou a maioridade. Já apanhou de polícia e traficante, para ele, sem distinção. O pai e a mãe sempre trabalharam. Quando ele ficou maiorzinho a mãe disse que era hora de trazer dinheiro para casa e, aos 10 talvez 11 anos, ele foi para rua pedir esmola no farol e pelo centro da cidade encontrou um jeito de fazer dinheiro. Consegue um bom dinheiro. Faz malabares e engraxa sapato, pede dinheiro e, algumas vezes, “toma sem pedir”. Acabou de comprar um tênis e um celular. Se tudo der certo em sua jornada, Bidu vai alcançar o sonho (que ainda parece difícil) de conseguir comprar um carro. Depois, uma casa melhor para a sua mãe.