Geração do cão

Estadão

19 Novembro 2009 | 15h38

Por Fernanda Aranda

Uma das réguas que mede o desenvolvimento de um local é a quantidade de filhos que as mulheres têm. Por essa perspectiva – e por outras também – São Paulo caminha para o status de desenvolvida. Ainda que as adolescentes paulistanas somem 17% em todos os partos aqui realizados e que em Marsilac, extremo sul, a Dona Maria carregue na barriga o sexto dos cinco filhos que dividem a mesma casa de dois cômodos, a cegonha já não visita as casas da capital como fazia antigamente. Em compensação, outros tipos de filhotes são cada vez mais presentes. Cachorros e gatos, sem exagero, substituíram as crianças. Não só em quantidade, como em tratamento. Sério, tem até babá de bichano hoje.

Dois levantamentos comprovam este fenômeno. Pelos números da Fundação Seade (Sistema Estadual Análise de Dados) na capital paulista, calcula-se em 1,9 o número médio de filhos por mulher, valor que vem decrescendo ao longo dos anos: em 1997, correspondia a 2,2 filhos por mãe (em Pinheiros, zona oeste, a média é de 0,9). Em compensação, o Inquérito Sobre Saúde, feito pela Secretaria Municipal de Saúde e divulgado em setembro, mostra fenômeno inverso para os animais de estimação. Entre 2003 e 2008 subiu de 41,7% para 43,2% a quantidade de casas em que moram cães. Os gatos que antes habitavam 8,9% dos domicílios, agora estão em 11,6%.

O impacto da troca bebê por bichinho são muitos. O número de pet shops já supera o de padarias segundo os dois sindicatos da categoria, as especialidades da medicina veterinária também cresceram e quase empatam com as exercidas pelos pediatras – oncológica, psicológica, cardíaca e até ortodontia (aparelhos fixos pra cães; o tratamento, segundo o anúncio de uma revista do Tatuapé custa R$ 1,6 mil) são só alguns exemplos. Agências de viagens especializadas para levar o animal, programas de TV sobre “como educar o seu cão” se proliferam e no Parque da Aclimação, por exemplo, todo dia às 8h tem encontro informal de “mães de cães de primeira viagem” que trocam experiências sobre as travessuras e sinais de inteligência demonstrados por seus cachorrinhos – alguns são levados para passear de carrinho e outros naquele tipo de tipoia, ao estilo “mamãe canguru”.

Não é só isso. Na Inglaterra, uma pesquisa mostrou que tanto amor ao bicho pode interferir até nos relacionamentos. Um estudo feito com 2 mil solteiros sobre a relação deles com os bichos mostrou que tanta dedicação aos pets diminui em 40% a chance de um relacionamento amoroso. Pode ser só chute – ou exagero, mas 58% dos entrevistados opinaram que o animal de estimação é como um membro da família e 25% optariam pelo animal caso tivessem de escolher entre ele e um namorado para dividir sua residência. E você, o que prefere?