Duas tragédias, dois ‘Brasis’

Estadão

21 Maio 2009 | 06h00

Por Rodrigo Brancatelli

Depois que participei no ano passado da cobertura do Estadão das enchentes em Santa Catarina, onde fiquei duas semanas e meia, muitos me perguntaram se a comoção seria a mesma se a tragédia ocorresse no Nordeste. A resposta poderia resvalar num puro preconceito, é verdade, mas as chuvas que há quase dois meses castigam a parte de cima do País trouxe o assunto de volta à tona.

Comparando números da tragédia que ocorreu em novembro do ano passado em Santa Catarina com a que acontece atualmente em nove Estados do Nordeste, parecem dois países diferentes. Santa Catarina teve 63 cidades afetadas, 137 mortes, 51 mil desalojados e 27 mil desabrigados. No total, a estrutura de suporte para lidar com as enchentes contou com 24 helicópteros e 4 aeronaves da Força Aérea. Doações da sociedade totalizaram R$ 34 milhões e o governo federal e o Congresso Nacional prometeram a liberação de R$ 360 milhões.

Apesar de um número menor de mortos até o momento, 45, o Nordeste tem 299 cidades afetadas, 200 mil desalojados e 114 mil desabrigados. Mesmo assim, com um número 4 vezes maior de pessoas que precisam urgentemente de ajuda, só 3 helicópteros e 3 aeronaves atuam na região. E as doações não alcançam R$ 4 milhões. Até o momento, quase dois meses após o início das tempestades, o governo federal não destinou uma “nova” verba aos Estados nordestinos – as cidades atingidas ainda esperam um repasse de R$ 23 milhões desde as enchentes do ano passado, referente a empenhos do Orçamento de 2007, e o Ministério da Integração Nacional promete assinar hoje uma outra Medida Provisória.

Um exemplo claro da discrepância – ontem, parte dos donativos destinados a vítimas das chuvas em Teresina foi para o lixo. Isso porque o material doado, principalmente por particulares, estava sem condições de uso. “Recebemos colchões velhos que não têm mais serventia, por exemplo. Se alguém deitar num colchão daqueles vai pegar uma doença respiratória”, explicou a secretária de Comunicação de Teresina, Cristiane Ventura.

Para especialistas, isso é resultado do nosso próprio imaginário – o Nordeste está acostumado com tragédias parecidas, então isso já não chamaria mais a atenção. No sul, pelo número maior de mortos em um período menor de tempo, o choque é maior.

Você concorda? Temos dois pesos e duas medidas? Deixe seu comentário abaixo e participe da discussão – faremos um outro post com os melhores comentários sobre o tema, já que ele parece estar longe de acabar.