De Guilherme de Almeida para Horácio Sabino

Estadão

20 Maio 2009 | 14h38

O taquígrafo, editor, advogado e empreendedor imobiliário Horácio Sabino (1869-1950) ajudou a urbanizar partes nobres de São Paulo, como os bairros Cerqueira César e Cidade Jardim. O Estado mostrou hoje uma reportagem sobre o livro Horácio Sabino – Urbanização e Histórias de São Paulo (Editora A&A Comunicação, 168 páginas, R$ 59), escrito por Carolina Andrade com pesquisa de Ana Carolina Layara Glueck – ambas bisnetas de Sabino.

Em 12 de agosto de 1950, dois dias após a sua morte, o poeta Guilherme de Almeida (1890-1969), publicou no Diário de São Paulo uma homenagem ao empreendedor. O texto, a seguir, integra o livro recém-lançado.

No dia aziago de anteontem, fundamente ferida de dor, esta minha terra se abriu em chaga viva para receber as formas perecíveis de um homem que muito e muito a amou de puro amor: Horácio Sabino.

Escrevi “formas perecíveis”. Mas prefiro pensar nas imperecíveis do espírito. E penso…

… penso, por exemplo, em dois “momentos” (dois daqueles “momentos que se eternizam” de que falava Azorín em sua epístola a Don Luis de Góngora) que vivemos juntos; gloriosamente juntos, e que se eternizaram como cravos vermelhos que pôs Velázquez entre os dedos de suas infantas. O primeiro…

… foi na noite pesada de 31 de outubro de 1932, no pátio da Casa de Detenção, no Rio. Viera a ordem, para os detentos da Revolução Paulista de partir para… partir, simplesmente partir. De um a um, entre dois inspetores de polícia, os homens de São Paulo eram metidos dentro de um auto que logo rumava para fora dos portões. A silenciosa multidão das famílias assistia imóvel àquele adeus noturno parecido com outro histórico, na “Conciergerie”…

Chegou a minha vez. Uma voz de mulher gritou de entre, nossa gente: – “Viva São Paulo!” Era uma loucura esse grito, ali, sob as armas do vencedor. E uma voz viril, uma única, respondeu a meu lado, reconhecível: – “Viva!” Meu querido Horácio Sabino!

O segundo “momento” foi em Paris. Plena primavera em pleno exílio. No entardecer azul-cinzento da Rue du Faubourg Saint Honoré, eu ia flanando, desfolhando à toa os olhos e o pensamento. De repente, um como estranho fluido varou-me num frenético arrepio. Alguém, que caminhava à minha frente, assobiava qualquer coisa. E eu, marcando distraidamente por aquele ritmo o meu passo mecânico, ia cantarolando a letra:

“Marcha, Soldado Paulista,
Marca o teu passo na História
Deixa na terra uma pista!
Deixa um rastilho de glória!”…

Súbito, caí em mim. “O Passo do Soldado”, o hino de Marcello Tupinambá, com letra minha, que levara a Cunha o meu Batalhão da Liga de Defesa Paulista, assobiado, assim, em Paris! Era de estarrecer. Em Paris! Olhei. Descobri. Compreendi. Estuguei o passo. Alcancei-o. Bati-lhe nas costas. Ele voltou-se. Abraçamo-nos… Meu querido Horácio Sabino!

Quem os cria – como Velázquez, os seus cravos encarnados – tem a eternidade em si. Horácio Sabino não morreu.

Veja também: galeria de fotos sobre a vida e o trabalho de Horácio Sabino.