Ao longo da linha do trem, um capítulo abandonado da história de SP – Parte 2

Estadão

17 Maio 2009 | 07h00


FOTO: Valéria Gonçalvez

Por Renato Machado

A reportagem do Estado percorreu na semana passada o tronco oeste da Cia Paulista, entre Itirapina-Panorama, uma das principais rotas do café para o interior do Estado no século 20. Com exceção de alguns bons exemplos, o cenário dominante são mendigos ocupando as plataformas, cheiro forte de urina, estações incendiadas e que tiveram roubados os azulejos, as portas, os vitrais, os bancos e os grandes relógios que decoravam as entradas. Só há o esqueleto.


FOTO: Valéria Gonçalvez

Algumas nem mais existem, como a de Universo, distrito de Tupã com menos de mil habitantes. Na década de 1940, o local era um importante entreposto do café e possuía grandes fazendas, como a de Souza Leão, cafeicultor que fundou pelo menos cinco cidades na região. O declínio do café afastou os trens e hoje o trilho se perde no meio das terras. Da estação, só ficou a plataforma de carga, já na propriedade do agricultor Donizete Bidóia, de 51 anos, que aparece na foto abaixo.


FOTO: Valéria Gonçalvez

“Todo mundo corria para ver o trem quando ouvia o apito. Ele trazia de tudo, principalmente calcário. Hoje, isso aqui é o corredor da fome e está todo mundo indo embora”, diz Bidóia. Na cidade, havia também 13 casas de ferroviários, que cederam lugar para um pomar.


FOTO: Valéria Gonçalvez

Seguindo sentido oeste, a estação de Parapuã é há três anos residência de Antônio Claudemir Gomes, de 50 anos, o senhor da foto acima. Aos oito, ele perdeu o pai e por isso saiu com sua mãe de Santópolis – norte do Estado – e foi para sua atual cidade em busca de trabalho nas plantações de café. O declínio do produto o jogou para outros locais para trabalhar na lavoura de cana, nos seringais e construção civil. “Passei pela capital, Minas Gerais, Mato Grosso, por tudo onde tinha trabalho”.

Gomes perdeu sua mãe e quando voltou para Parapuã não possuía mais um lugar para morar. Foi viver em uma grande caixa d’água, onde ficou por três anos. Após a família que morava antes na estação ganhar uma casa da prefeitura, ele se mudou em definitivo para o local, onde fez uma ligação elétrica clandestina para ligar uma televisão e geladeira.

“Eu cuido disso aqui. Quando uns ciganos quebraram uma porta para invadir, eu chamei a polícia”, diz ele, que ao dormir coloca uma grande lata na porta, pois tem medo dos “maconheiros”, que certa vez tentaram colocar fogo com Gomes dentro da estação. Ele diz que recebeu uma promessa do prefeito de que ganharia uma casa e que ali seria um centro cultural. “Só que isso faz dois anos”.


FOTO: Valéria Gonçalvez

Na grande estação de Marília, um grupo de mendigos se reúne para conversar, “tomar um goró” e dormir juntos – por segurança. Lucas Paulo da Silva, de 55 anos, trabalhou como operário da Ferroban, companhia que administrava os trilhos no Estado. “Isso aqui fica cheio de lixo e a gente limpa tudo. Então por que não deixam a gente quieto aqui?”.