“A pichação faz parte do nosso modelo social”

Estadão

06 Novembro 2009 | 15h25

FOTO: Paulo Liebert/AE

Por Fernanda Aranda

As pichações que se espalham pela cidade de São Paulo deixaram de ser assunto só de polícia para frequentar as discussões sobre arte. O que antes incomodava apenas a paisagem urbana, agora também “cutuca” quem se dispõe a pensar em novidades sobre manifestações culturais.Roberto Oliveira e João Wainer deram força para o debate com a elaboração do documentário Pixo, que está nas salas de cinema da cidade desde o final de outubro e já foi visto por 90 mil pessoas em uma única sala de cinema da França, país onde estreou. A polêmica, aliás, não é nova. Foi acesa há sete anos, quando o cineasta Lucas Fretin focou suas lentes no mesmo tema, com o filme A Letra e o Muro. Fretin mora na França desde 2003 e, em entrevista ao Blog da Metrópole, falou sobre o novo rótulo do picho – que pela legislação é enquadrado como crime.

Já existe uma resposta para dúvida se é arte ou vandalismo quando o assunto é pichação?

Arte ou vandalismo, este debate é polêmico e sempre é evocado quando tocamos no assunto, porque na sociedade existe uma grande diferença entre o mundo da arte, galerias e exposições e o mundo da rua. Mas esta questão, na verdade, é uma questão falsa e que não tem sentido. Tudo depende do que você chama de arte. Duas hipóteses:

a)Se arte é o que está dentro das galerias e que representa ao mesmo tempo um conceito e um valor (todas as obras têm um preço e são comercializadas) então pichação não é arte.

b)Se arte é uma forma estética de expressão humana, como são pinturas indígenas ou rupestres, então pichação é arte.

Uma coisa é certa: pichação é vandalismo. Mas pode ser arte também. Uma possibilidade não exclui a outra. Não se pode confundir arte com beleza. A pichação tem sua própria estética, uma estética agressiva. Mas isso não impede que ela tenha uma própria estética.

Uma semana antes do incidente ocorrido na faculdade Belas Artes, quando pichadores invadiram o prédio e picharam várias instalações, eu estive no Departamento de Arquitetura dando uma palestra sobre pichação após a projeção do meu filme. Me fizeram a mesma pergunta. E foi isso que eu respondi. Em seguida perguntaram ao público se entre os alunos havia pichadores e algumas pessoas levantaram a mão. A resposta dos pichadores foi esse ato. Pichação para eles é arte e ponto.

É preciso levar em conta que esse tipo de expressão não tem nada de novo, ao contrário, esteve sempre presente na história do homem. Escrever sobre muros é um ato comum em várias sociedades. A primeira forma de expressão humana, as pinturas rupestres que definem, pela antropologia, a data de aquisição da linguagem, são pichações! Ao descobrir Pompeia sob cinzas vulcânicas, descobrimos uma cidade pichada! Há inclusive citações de pichação na Bíblia! Para concluir, a pichação é algo muito mais antiga que o próprio conceito de arte. Defini-la como arte ou não é completamente arbitrário.

FOTO: Paulo Liebert/AE” />

É exagero considerar que a pichação começa a ganhar status de manifestação artística na sociedade? Acredita que galerias e museus possam querer trazer a pichação para este circuito?

Não é exagero. A arte deve poder se apropriar de tudo. Todos os elementos da vida humana, então por que não pichação? Mas pichação em galeria de arte não é a mesma coisa que na rua. Na rua, ela tem um outro objetivo: é uma forma de expressar uma revolta contra essa sociedade que os excluiu, é uma busca de aventura e é também uma forma de organização social. Existe um consenso entre os pichadores que a pichação é uma forma de contestar a sociedade, ocupar os muros ilegalmente colocando o nome da sua “gangue”. A revolta na pichação, no entanto, está mais presente na sua forma que no seu conteúdo. As letras são mais importantes do que as palavras, são pontiagudas, simples, rústicas e fazem caretas. É na sua estética que podemos interpretar o sentimento de revolta.

Além disso, a pichação é pura adrenalina, vários riscos fazem parte dela como quedas, violência policial, brigas entre gangues, agressão pública… Pichação implica em gosto pelo risco, esporte mas principalmente em regras de respeito e solidariedade entre os pichadores.

A pichação em São Paulo desenvolveu um organização complexa. As gangues de pichação são organizadas em grupos maiores, como uma agremiação, chamada “grife”. A “grife”, normalmente representada por um símbolo à direita do picho da gangue, é uma forma de união que não depende de uma demarcação territorial. Ela pode ser aberta e ter integrantes de diferentes regiões de São Paulo, integrantes que muitas vezes não se conhecem e talvez nunca se cruzem. É uma união que se concretiza nas ruas, nas próprias pichações nos muros da cidade. Tudo isso faz da pichação um ato singular que perde suas características num museu ou galeria.

Internacionalmente já sabemos que a pichação brasileira, em especial a paulistana, é mais aceita. Você, agora morando na Europa, percebe isso? Avalia que o fato do mundo olhar para a pichação pode fazer com que os brasileiros façam o mesmo?

Quando cheguei aqui na França em 2003 ninguém conhecia a pichação de São Paulo. Até então todo mundo achava que a referência eram os Estados Unidos. Hoje, com a internet e o intercâmbio entre pichadores no mundo, a pichação paulistana se tornou muito conhecida.

Na verdade ela tem um estilo estético completamente diferente das pichações no mundo, que inclusive são chamadas “tags”. No mundo do grafite existe uma diferença clara entre “pixaçao” (os pichadores escrevem frequentemente com “x”) e a “tag”. Ela não tem também a amplitude que tem a pichação de São Paulo, nem os mesmos tamanhos. Ela é muitas vezes denominada “tag selvagem de São Paulo”!

Em São Paulo, elas estão em todas as partes, nos lugares mais difíceis e arriscados. Muitas vezes, são enormes, tomando toda uma fachada! No entanto, ela continua sendo uma admiração no meio do grafite e da “tag”. Mas, para o público geral, continua um ato de vandalismo tão horrível como para os próprios brasileiros. Não acredito que isso possa mudar a opinião dos brasileiros, apesar de muitos gostarem das “tags” e do grafite. Isso acontece só porque são coisas diferentes do que estamos acostumados a ver nas ruas.

Por último, se a sociedade e a pichação entrarem em paz, a pichação sobrevive?

Acredito que a pichação vai continuar mesmo se a sociedade fizer as pazes com ela. Se a pichação for legalizada, acho que ela até aumentaria! Não acho que a proibição desse ato seja o único motor que o impulsiona. Difícil acabar com uma prática que começou há pelo menos 15 mil anos.

O que pode ocorrer é que ela se transforme em outra coisa diferente do que é hoje em São Paulo. A pichação continua sendo um sintoma do mal-estar social. Na verdade, ela só existe porque há um ambiente social propício: desigualdade, exclusão, racismo, um estado de miséria crônica que causa na cabeça de muitos descrença total. Persiste em muitos pichadores uma perda completa na esperança de ascensão social e um redirecionamento dos valores para modos de vida alternativos.

A pichação faz parte de nosso modelo social de São Paulo. Sem ele, ela nunca existiria. É um Estado fraco que abandonou os cidadãos (não garante saúde e educação). Enquanto este modelo continuar, a pichação deve continuar também.