A morada das palavras

Estadão

08 Junho 2009 | 18h11

Por Rodrigo Brancatelli

A entrada fica numa portinha de ferro mal-ajambrada e enferrujada, ali no número 490 da Rua Fidalga, coração da Vila Madalena. É preciso ainda percorrer um corredor estreito cheio de tambores, baldes, galhos de árvores dependurados, vasos, caixas de papelão, dois tijolos quebrados e toda a sorte de ferramentas e cacarecos jogados pelo chão. Parece até difícil acreditar que lá dentro, nos fundos daquele imóvel no número 490, fique a morada das palavras. Um lugar onde as letras cheiram à madeira, onde os substantivos, verbos e artigos são montados e desmontados como se fossem pequenos blocos de Lego. Onde cada frase tem seu valor. Seu trabalho. E sua recompensa.

FOTO: Reprodução

Para os não-românticos, ali fica a Gráfica Fidalga, que imprime cartazes lambe-lambe daqueles encontrados nos muros de São Paulo, anunciando shows de pagode, funk e afins. Os pôsteres são feitos manualmente, em uma máquina alemã de 1929, que já pertenceu ao PT, com letras esculpidas em eucatex. Para os funcionários Mauricio, Cláudio, Carlão e Carlinhos (e para muitos que conseguem enxergar a poesia daquele lugar), a Gráfica Fidalga também pode parecer um lugar mágico, parado no tempo, onde o “U” está sempre perdido atrás do armário e onde o “L” e o “A” namoram sozinhos em uma gaveta. Um lugar onde as frases têm um valor todo especial, e são feitas sobretudo com paixão pelo trabalho.

Em tempos de Lei Cidade Limpa, vale a reflexão sobre o que é sujeira e o que é arte; o que é poluição visual e o que é identidade urbana. Abaixo, está um vídeo feito pelo site Cool Hunting sobre a gráfica – 4 minutos e 10 segundos que mostram que a poesia existe sim no nosso dia a dia de São Paulo. É só prestar um pouquinho mais de atenção.

[kml_flashembed movie=”http://www.youtube.com/v/kI5RekPMh_c” width=”400″ height=”243″ wmode=”transparent” /]