82 dias de medo em Paraisópolis – Como a reportagem foi feita

Estadão

31 Maio 2009 | 05h00


FOTOS: Paulo Liebert/AE

Por Bruno Paes Manso

A cabeleireira Aurenice Soares dos Santos, na foto acima, diz que deixou de gostar de policiais depois de ver sua violência na invasão de casas na viela onde mora, em Paraisópolis. Ela e outros moradores contaram ao Estadão histórias de abusos na Operação Saturação. Foram 82 dias de medo e terror em uma das maiores favelas de São Paulo – moradores denunciam violência da PM; barracos foram invadidos sem mandados judiciais; trabalhadores, crianças e idosos relatam sessões de tortura.

De acordo com a polícia, no balanço da operação constaram 93 flagrantes, captura de 61 procurados, 31 armas e 9,9 quilos de cocaína apreendidos. Mas o saldo final vai além: sobrou raiva, humilhação, revolta, indignação que ninguém ainda é capaz de dizer o que isso de fato pode significar para a cidade.

Mesmo sem saber ou se interessar pelas histórias que eu havia apurado, a resposta da Polícia Militar parece tentar desqualificar de antemão os testemunhos contidos na reportagem. Diante disso, acho importante esclarecer ao leitor como a matéria foi feita. Circulei por Paraisópolis ao longo de dois dias para ouvir os depoimentos. Fui acompanhado da pesquisadora Marisa Feffermann, que conhece lideranças comunitárias do bairro e me chamou para conhecer Paraisópolis. A pauta proposta inicialmente estava relacionada a assuntos de habitação. Ao longo das conversas com moradores, surgiram diversos depoimentos sobre arbitrariedades cometidas pela Polícia Militar durante a Operação Saturação.

Foi minha a iniciativa de ouvir essas pessoas que haviam sofrido abusos. Em junho de 2007, havia ido ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, dois dias depois da ação da Polícia Militar que deixou 19 mortos. Lembro de ter pensado que em São Paulo, se havia violência policial, a corporação, nos últimos anos, vinha se esforçando para garantir a preservação dos direitos. Problemas aconteciam, mas não eram a regra. Em Paraisópolis, contudo, a escala dos relatos de arbitrariedades e de abusos foram muito parecidos com a que ouvi no Rio. Foram dezenas de histórias de invasões de casas sem mandado judicial. Dezenas ao longo de dois dias. Se ficasse semanas, minha impressão é que facilmente chegaria a centenas. Ouvi relatos que me embrulharam o estômago, como surras em mulheres, crianças e humilhação a senhoras com mais de 60 anos. Ouvi o depoimento diretamente das pessoas que sofreram abusos, que se emocionaram e choraram na minha frente. Crianças me disseram como apanharam.

Os moradores de Paraisópolis sabem que hoje a população vive com a pecha de ser aliada de traficantes. Sabiam, inclusive, que seus depoimentos poderiam ser desqualificados, como já vem ocorrendo com frequência. Corajosamente, algo que poucas vezes vi ao longo de minha carreira de repórter, eles concordaram em dar o nome e mostrar o rosto. Pensei em retirar o nome para resguardar a integridade deles. Mas achei que a coragem demonstrada era ao mesmo tempo uma posição relevante que eu não tinha o direito de tirar da reportagem.

Depoimentos semelhantes foram prestados a entidades como Associação dos Juízes pela Democracia, Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e Associação Paulista dos Defensores Públicos, que estiveram no bairro a convite do movimento Paraisópolis Exige Respeito!, de iniciativa dos moradores. Mesmo não havendo provas do que eles disseram, acreditamos no jornal que a reportagem era importante para que o assunto viesse à tona. No Complexo do Alemão, um morador me contou que teve a casa invadida pela Polícia e que havia sido humilhado. Perguntei se ele tinha provas e ouvi uma resposta que me faz pensar duas vezes antes de repetir a mesma pergunta. Ele me falou mais ou menos o seguinte: “a Polícia vem na minha casa sem autorização, mexe nas minhas coisas, humilha minha família e eu tenho que provar o que?”

Sei que a Polícia Militar nos últimos anos tem se esforçado para aumentar o treinamento de seus homens. Mas a desqualificação e a criminalização dos denunciantes, juntamente com o argumento de que apenas duas denúncias formais foram feitas, me obrigam a fazer a pergunta óbvia ao comando da corporação: como denunciar se quem acusa policiais parece ser tratado como suspeito em vez de vítima?

Abaixo, veja outro post sobre a reportagem 82 dias de medo em Paraisópolis – A tortura, o hip hop e a resposta da Polícia Militar