Projeto vai em busca de ave quase desaparecida na região de São José do Rio Preto
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Projeto vai em busca de ave quase desaparecida na região de São José do Rio Preto

José Tomazela

09 Março 2018 | 08h25

Desde janeiro deste ano, pesquisadores vasculham as matas ciliares de afluentes dos rios Pardo e Turvo, na região de São José do Rio Preto, em busca de uma raridade. Com equipamentos como binóculos, filmadoras e gravadores, eles tentam registrar a presença do aracuã Ortalis remota, ave que se acreditava extinta na natureza. A rigor, nem se considerava que esse pássaro lendário fosse uma espécie autônoma, mas uma subespécie do aracuã-pintado (Ortalis guttata), ave da família dos cracídeos, a mesma do mutum e do jacu.
De acordo com o ornitólogo Carlos Gussoni, coordenador do grupo, os primeiros resultados são animadores. Nas incursões iniciais, a equipe da Sociedade para Conservação de Aves do Brasil (Save Brasil) registrou 29 indivíduos da espécie. “Pela extensão da área já pesquisada, acreditamos que o número final pode chegar a pouco mais de 100 exemplares”, disse.
Por esse número, segundo o ornitólogo, é possível entender porque a Ortalis remota já é considerada uma das aves mais ameaçadas de extinção do planeta. “O total de indivíduos está muito abaixo do limite para ser considerado criticamente ameaçado”, disse. Uma ave nessa condição, a jacutinga, típica da Mata Atlântica, tem cerca de 10 mil indivíduos no Estado de São Paulo.
A busca pela nova espécie de ave teve início a partir de uma pele coletada em 1927 e depositada no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). Não havia ave correspondente à do couro taxidermizado, mas se parecia com a pele de aves da família dos cracídeos, o que levou à crença de que se tratava de uma subespécie extinta do aracuã-pintado (Ortalis guttata).
Em 2001, porém, o ornitólogo norte-americano Edwin Willis registrou ter encontrado, entre Nova Granada e Barretos, a ave que podia “vestir” a pele guardada no museu da USP, mas era um pássaro diferente do aracuã-pintado. Somente no passado, após estudos científicos, a Ortalis remota foi reconhecida como uma espécie plena.
Gussoni conta que o novo pássaro difere do parente mais próximo na plumagem e na voz. “Dá para diferenciar visualmente pelo padrão de pintas no peito, além da vocalização. Na região, a ave é conhecida como jacuzinho, por ser menor que o jacu, e também por ‘guarda faca’, pois parece falar isso. Já sabemos que é uma ave de beira de rio, pois todas estavam em mata ciliar.”
Os achados se distribuem numa faixa territorial que vai de Barretos a Rio Preto, restritos a uma dezena de municípios. “Vimos que a espécie está se reproduzindo, pois achamos indivíduos jovens em Guapiaçu, mas ainda não encontramos ninhos.”
O projeto “Estimativa populacional e conservação do criticamente ameaçado Ortalis remota”, desenvolvido pela Save Brasil, pretende estimar o tamanho populacional da ave no Estado e desenvolver estratégias para salvar a espécie da extinção. As aves da família dos cracídeos ocorrem exclusivamente no continente americano. Os trabalhos seguem até dezembro deste ano, com apoio financeiro de R$ 63 mil da Fundação Grupo Boticário.
Ao final, será proposta a criação de uma unidade de conservação na porção territorial mais habitada pela espécie, já que, atualmente, não existe área protegida no espaço paulista ocupado pelo Ortalis remota.

A ave Ortalis remota está quase extinta na natureza. Foto Carlos Gussoni


A ave Ortalis remota está quase extinta na natureza. Foto Carlos Gussoni