Estudo identifica ‘corredor de tornados’ na região de Campinas
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Estudo identifica ‘corredor de tornados’ na região de Campinas

José Tomazela

21 Junho 2016 | 19h12

Um estudo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou um ‘corredor de tornados’ no interior de São Paulo. Na região que inclui as cidades de Campinas, Itupeva e Jundiaí fica a área com o maior risco de tornados do País, conforme estudo do geógrafo Daniel Henrique Candido, do Instituto de Geociências da Unicamp. A chance de ocorrer um tornado nessa região é de 36% ao ano, conforme a escala de risco criada para medir a possibilidade da ocorrência, com base em fatores climáticos, geográficos e de topografia.
Isso significa que, a cada três anos, a região terá ao menos um desses fenômenos. Em segundo lugar na escala de risco está o triângulo formado por Itu, São Roque e Cabreúva, com 25% de chance – um tornado a cada quatro anos. Outras regiões do Estado, como a faixa litorânea e o entorno de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, também são propensas, mas o risco fica em torno de 20%. No oeste e no sudoeste paulista a chance de haver tornado fica abaixo de 10% ao ano.
O estudo, convertido na tese de doutorado, não inclui os eventos ocorridos após 2011. Os quatro possíveis tornados que atingiram o interior no início de junho deste ano aconteceram em Campinas, Atibaia, Jarinu e São Roque, todas nas áreas de maior risco. “Não dá para afirmar com certeza, pois aconteceram à noite e não deu para visualizar o funil característico da formação, mas pela natureza dos danos, há fortes indicativos de que foram tornados”, disse Candido.
A área de maior incidência se inicia ao longo das barragens do Rio Tietê, avança por Itu, Campinas e Jundiaí, seguindo para a Grande São Paulo e litoral. O pesquisador lembra que os tornados de maior intensidade foram registrados nessa faixa, como o de Itu, em 1991, que deixou 15 mortos e quase 200 feridos, e o de Indaiatuba, em 2005, destruindo mais de 400 imóveis. O tornado de Itu quebrou uma torre de concreto e lançou um ônibus de estudantes a mais de 40 metros, tendo sido classificado como um F4 e, depois, reclassificado para F5, com ventos acima de 261 km/h.
Segundo o pesquisador, a formação de tornados no Brasil só foi aceita pela comunidade científica após esse evento. Antes, os tornados eram classificados como tempestades ou vendavais. Em 1995, um novo episódio foi registrado entre Paulínia e Jaguariuna. Dez anos depois aconteceu em Indaiatuba. “Este anos, tivemos a repetição dos fenômenos praticamente na mesma região”, observou.
Para o Candido, o aumento da urbanização, com o consequente desmatamento, e a construção de barragens como as do Rio Tietê induzem a formação de tornados. “Pesquisas mostram que as grandes massas de água expostas ao sol geram contrastes térmicos, um dos fatores desses fenômenos.” Ele considera que as cidades, especialmente as de maior porte, são produtoras de calor secundário, através da frota de veículos e sistemas elétricos, e geram ‘ilhas de calor’ que favorecem a ocorrência.
De 1991 a 2011, o Estado de São Paulo registrou 62 tornados, à frente do Rio Grande do Sul com 40 e de Santa Catarina com 38, segundo a pesquisa de Candido. Em seguida vêm Paraná, com 19, e Rio de Janeiro, 12. Ao todo, foram registrados cerca de 200 tornados nesses vinte anos, média de 10 por ano no País. A pesquisa foi feita com base em vídeos, fotos, notícias e registros oficiais. O pesquisador ressalva que, devido à maior densidade urbana, em São Paulo e nos Estados do Sul há mais chance de registro da ocorrência do que em outras regiões do País. “Hoje, qualquer pessoa com um celular pode filmar a nuvem com o funil e postar na internet”, disse.
DESPREPARO – São Paulo, assim como o Brasil, não está preparado para enfrentar eventos extremos como os tornados, segundo a geógrafa Lucí Hidalgo Nunes, da Unicamp, uma das maiores especialistas em fenômenos climáticos ligados a ventos no Brasil. “Quando maior a capacidade de previsão, mais vidas podem ser salvas, mas embora sejam fenômenos relativamente previsíveis, não temos estrutura para prevê-los.” Segundo ela, uma rede de radares Doppler, capaz de identificar fenômenos meteorológicos o seus níveis de intensidade, aliado a um sistema de alerta, seria suficiente para reduzir os danos e preservar vidas em caso de tornados. “Pena que ainda não temos.”
Orientadora da tese de Candido, a pesquisadora acredita que, além de trazer dados reveladores sobre a ocorrência de tornados no país, o estudo pode ajudar na tomada de decisões sobre políticas públicas de prevenção dos fenômenos. “Sabendo que uma região é mais suscetível, os planos diretores podem determinar que tipo de ocupação e de construção é recomendável para aquele local. Isso ainda não é levado em conta no país, mas seria desejável que fosse.” A criação de um sistema de alerta com 30 minutos de antecedência, por exemplo, ajudaria os moradores da região a se protegerem.
A geógrafa analisou as ocorrências recentes no interior de São Paulo e tem certeza de que o fenômeno em Jarinu foi um tornado. “As pessoas descreveram movimentos rotacionais, uma até viu uma árvore rodando, o que é típico do tornado. Eu nunca tinha visto algo tão forte.” Em Campinas, ela percorreu as áreas atingidas e acredita que também pode ter sido um tornado, embora não tenha 100% de certeza. “Na rota do fenômeno, observei vários indícios que são mais próprios do tornado do que da micro-explosão. Com certeza, pelos estragos que causou, o vento foi bem mais que os 120 km por hora que estão falando.”

Destruição causada por tornado em Jarinu. FOTO EPITACIO PESSOA/ESTADÃO

Destruição causada por tornado em Jarinu. FOTO EPITACIO PESSOA/ESTADÃO