Edificado há 358 anos, mosteiro de São Bento é reaberto após restauro em Sorocaba
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Edificado há 358 anos, mosteiro de São Bento é reaberto após restauro em Sorocaba

José Tomazela

10 Abril 2018 | 10h22

Fechado há sete anos para obras de restauração, o Mosteiro de São Bento, construído há 358 anos pelo bandeirante Baltazar Fernandes, está reaberto para visitação pública desde o final de março, em Sorocaba, interior de São Paulo. O prédio, tombado pelo patrimônio histórico estadual desde 1982, é considerado uma relíquia arquitetônica. Parte da estrutura é a mesma original, em taipa de pilão, edificada seis anos após a fundação da cidade, em 1654.
   Foi o bandeirante fundador de Sorocaba quem doou as terras à Ordem Beneditina e ajudou os monges a erguerem o mosteiro. “Até hoje cumprimos a exigência dele, de celebrar 13 missas anuais em sua intenção”, disse o monge Rocco Fraioli, responsável pelo mosteiro. O corpo de Baltazar Fernandes está sepultado no presbitério da Igreja de Sant’Anna, que integra o conjunto. Ali também estão os restos de Pascoal Moreira Cabral, bandeirante sorocabano que fundou Cuiabá (MT). “Trata-se de um dos poucos exemplares de edificação monástica original no Brasil e, talvez, no mundo, com a presença ininterrupta dos beneditinos”, afirmou Fraioli.
   A restauração começou em 2011, com doações da comunidade e recursos obtidos através da Lei Rouanet de incentivo à cultura. Em razão da idade do prédio, houve necessidade de “acinturar” algumas paredes de taipa – barro socado – que estavam ameaçadas. Foram refeitos o telhado e as estruturas hidráulica e elétrica. Durante as intervenções, foi preciso fechar a igreja, onde eram realizadas missas diárias. A capela é a parte do mosteiro de acesso público e está com a restauração física concluída. “Estamos devolvendo esse espaço, agora com toda segurança, e a população vai poder acompanhar a evolução do restauro da parte artística”, disse o monge.
A aposentada Ida Fornazini, de 72 anos, comemorou a reabertura. “Frequento a igreja do mosteiro desde a minha juventude e fico feliz pela cidade ter preservado esse patrimônio. Espero que tenhamos de volta logo o altar, que é maravilhoso”, disse.

Interior da Igreja de Sant’Anna, já restaurado. Foto Epitácio Pessoa

     O restauro artístico, que envolve o altar, imagens e esculturas, foi iniciado em 2017 e deve terminar no ano que vem. O trabalho, realizado pela equipe da restauradora Katia Regina Magri, é minucioso. “É como uma prospecção arqueológica: assim que fazemos a remoção de uma camada de tinta, surge outra embaixo, mais antiga e valiosa”, explicou. Ela conta que os entalhes do retábulo do altar e das colunas, que pareciam ser aplicados, fazem parte da mesma peça de madeira. “É uma escultura, um trabalho de um grande artista anônimo. E são 90 peças dessas”, disse.
     Quando o altar foi retirado, havia uma parede de barro socado dando suporte à estrutura. “Não imaginávamos que essa parede existisse, mas temos certeza que faz parte da estrutura original, construída por ordem de Baltazar Fernandes”, afirmou o monge. Além do altar, serão restauradas imagens do século 18, como a padroeira Sant’Anna Mestra, um Senhor da Agonia e um Cristo da Coluna. Algumas peças são provenientes do Mosteiro de São Bento, de São Paulo, que teve o prédio original demolido no início do século passado para ganhar a atual construção.
     Conforme o historiador Sérgio Coelho de Oliveira, a igreja é anterior ao mosteiro, pois foi citada no inventário de Izabel de Proença, mulher de Baltazar Fernandes, datado de 1655. Segundo Oliveira, a igreja era dedicada a Nossa Senhora da Ponte e foi anexada ao mosteiro durante a construção deste. Filho de Suzana Dias, fundadora de Santana de Parnaíba, e bisneto do cacique Tibiriçá, o paulistano Fernandes era, segundo ele, uma das figuras mais importantes da história de São Paulo de Piratininga. “Foi tão importante que Anchieta o considerava o fundador de São Paulo.”

Fachada externa do mosteiro ainda está em obras. Foto Epitácio Pessoa

Equipe restaura peças do altar. Foto Epitácio Pessoa