Washington
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Washington

Luiz Henrique Matos

13 Março 2018 | 10h16

Estou no avião, voo internacional, uma longa e constipada noite pela frente, as luzes baixam e eu me esforço para dormir. Lá pelas tantas, todo mundo dormindo, eu dormindo, o piloto dormindo (tenho certeza que eles dormem lá na frente) e de repente eu acordo com um sinal apitando distante e abafado em algum lugar lá fora. Me tira o sono e tento olhar pela janela. Nada. Durmo. O sinal persiste. Tento dormir. Deve ser algo lá na cabine, algum alarme no banheiro, um probleminha na asa (na asa!?), eu penso, nunca voei com essa companhia aérea. Cochilo um pouco mais. O barulho…

Assim a coisa vai, por quase uma hora, até a aeromoça acender a luz da cabine para servir o café da manhã. Me estico, bebo água, falta pouco para chegarmos, finalmente. O ruído, que tinha sumido, retoma repentinamente e me ocorre algo que… opa, espera. Eu levo a mão até o bolso da poltrona à frente e meu temor se confirma: deixei o alarme do celular programado para tocar. Às 5h. No avião. Por quase uma hora. Eu congelo. Eu não tiro a mão de lá. Fico fuçando aquele buraco escuro à procura do celular e um botão que pudesse apertar para silenciar aquilo. Olho ao redor e percebo que as pessoas à minha volta já não dormiam mais. Ponho o fone no ouvido. Ponho a cabeça inteira no bolso da poltrona à minha frente. Queria entrar ali, cair num túnel e ser ejetado do avião junto com as malas. Mas aí eu apareceria na esteira de bagagens na frente de todo mundo e isso também seria constrangedor.

Às vezes tenho a sensação de que minha vida é um eterno episódio do Mr. Bean.

Fui a primeira pessoa a sair do avião e o primeiro a entrar no trenzinho, o primeiro na fila da imigração (nunca antes na história daquele país…) e também a sair direto, passos largos, rumo ao táxi que me levaria até o centro da cidade. “Welcome to Washington!”, dizia a grande placa. Sensação térmica de -5 graus na rua e eu de camiseta. Entrei no carro apressado e como num passe de mágica, aquele ambiente morno, o largo banco de couro, esqueci de tudo o que ocorreu no voo, o alarme, a vergonha, o bolso da poltrona à minha frente onde eu habitaria e agora só conseguia pensar no rosto redondo, sorridente e no bigodinho do vocalista do “É o tcham!”. O motorista do táxi, que também tinha um rosto redondo e um bigode, não sorria, mas lembrava igualmente o Compadre Washington. Só que ele era etíope e não baiano. Mero detalhe.

Como é que se diz compadre em inglês?

Motorista esse que, nada compadre, uma vez pago e devidamente agradecido, fez o grandessíssimo favor de me deixar em um endereço diferente e distante do hotel em que deveria ficar e para onde tive que caminhar, mochila nas costas, mala de rodinhas tremendo nas mãos, seisemeia da manhã, um frio siberiano endurecendo as orelhas e a certeza de que alguém naquele voo de onde saí tinha nesse exato instante um boneco barbado, barrigudo e de óculos sendo espetado como vodu. A vingança deles era um prato que eu comia nesse frio.

“Perseverar no cumprimento de seu dever e guardar silêncio é a melhor resposta à calúnia”, diria Washington. Não o Compadre, mas o George, primeiro presidente do país onde piso agora e famoso por estampar a nota de 1 dólar que carrego amassada no bolso.

“Ordinário!”, diria Washington, o Compadre. Numa citação mais conveniente para mim agora.

Enquanto caminhava trepidante rumo ao hotel, em minha mente tocava um alarme longínquo, uma canção, praticamente um hino, que me levou a perseverar e me trouxe, finalmente, até este momento glorioso: “Seguuura o tcham! Amarra o tcham! Segura o tcham, tcham, tcham, tcham, tcham!”

Washington, DC.