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Se o mundo acabar amanhã

Luiz Henrique Matos

26 Janeiro 2018 | 20h42

O Relógio do Juízo Final foi adiantado em 30 segundos essa semana e agora está a dois minutos da meia-noite, horário que representa o fim do mundo. É o que diz o Boletim dos Cientistas Atômicos da Universidade de Chicago. Parece o nome de uma banda do colégio mas trata-se de um grupo de estudiosos que desde 1947 se dedica a calcular, simbolicamente, o estágio em que estamos de destruir a Terra em uma guerra nuclear.

Até semana passada, estávamos a 2:30 minutos do apocalipse, mas fomos rebaixados pelos acadêmicos dado o risco iminente de uma guerra entre EUA e Coreia do Norte e também, alegam, o baixo esforço que nossa espécie tem feito para lidar com as questões relativas às mudanças climáticas.

E aí, me peguei pensando, e se o mundo acabasse amanhã? Ou melhor, se tudo acabasse daqui a pouco, caso Trump e Kim Jong-un levassem a cabo suas promessas e projetos nucleares. Eu lia a notícia sentado no refeitório enquanto mastigava um sanduíche. Infelizmente, perdi a habilidade de fazer refeições sozinho sem mexer no celular, então gasto esse tempo para me atualizar sobre o noticiário cotidiano (mas, nota-se que não me alimento com nada de muito útil).

Em segundos, notícia e pergunta suscitaram minha capacidade inata de dispersão e debates mentais sobre o fim do mundo ocuparam meu universo de possibilidades. Caramba, e se o mundo acabasse mesmo amanhã ou depois?

Numa primeira mastigada, só me ocorria que teríamos como consolo o fato de que não sobraria ninguém no planeta para se envergonhar do fato de que deixamos dois idiotas de tal estirpe apertarem seus botões nucleares. Em um mundo que produziu mentes como Einstein, Galileu, Isaac Newton e gente do caráter de Martin Luther King e Nelson Mandela (para ficar nos últimos cinco séculos), é meio frustrante saber que seríamos condenados a morte pela truculência adolescente de Donald Trump e Kim Jong-un.

Um olho no lanche, outro na pequena tela do meu celular e acabo me esquecendo do contexto que habito nesse instante. Passo os olhos ao redor e deixo os ouvidos absorverem um pouco das conversas nas mesas ao lado. Só se fala de política agora. Até 2014 éramos 200 milhões de técnicos de futebol, mas de lá para cá viramos juízes. Mas, não de futebol, somo juízes federais, especialistas em Direito Eleitoral.

Hoje em dia, até eu sei o que raios é o Tribunal Federal da 4ª Região. Veja bem, o da quarta! E sei o motivo do bendito ser a quarta e não da terceira ou quinta região. Conheço as instâncias, conheço os recursos e apelações. Agora eu sei o que é “transitado em julgado”. Sei os nomes dos 11 ministros do STF melhor do que a escalação do meu time. Ontem, no jornal, havia uma animação em fluxograma explicando as possibilidades de recursos do Lula e parecia um jogo de vídeo-game. Minha mente carrega um punhado de hashtags que se alternam entre #lula #cadeia #pmdb #aécio #leblon #rio #cabral #colombo #caravelas #america #moro #curitiba #janot #joanete #stf #lavajato #meucarrotasujo #pt #gilmar #hipopotamo #petrobras #gasolina4reais #temer #vampiro #bolsonaro #palavrao #nazista #mito #rogerioceni #saopaulo #crise #mídia #golpe #karate #kataguiri #brasillivre #passelivre #deusmelivre #carmenlucia #vampiro #brasilia #parlamento #dracarys! #apocalipse #partiu. Em meio ao caos noticioso, a reconstrução do Brasil em que muitos acreditam passa invariavelmente pelo fim do mundo.

Alguém falou em fim do mundo?

Não é de hoje que reflexões acerca do Juízo Final nos inquietam. Anos atrás, às vésperas do bug do milênio de 2000 e depois em meados de 2015 havia quem acreditasse que o planeta que habitamos estava com os dias contatos. Planos hedonistas e oportunistas povoaram nossas timelines e conversas sobre que tipo de vida levaríamos caso nos restasse apenas uma ou duas semanas. Esse clichê é também o dilema do doente terminal dos filmes de Hollywood que se aplica em viver de forma plena o que não viveu até ali. É, ainda, o sábio legado dos mais velhos quando se descobrem, como diz um amigo, “com mais passado que futuro” na vida. Mas, em dois minutos nenhum plano seria possível.

Pode estar acontecendo agora, pensei na mordida seguinte. O norte-coreano acordou com o topete virado e resolveu dar um fim em tudo antes de dormir.

Em vez de pensar no que fazer com o pouco tempo que me restaria sobre essa terra, minha questão seria uma contagem regressiva de 120 segundos refletindo sobre como gastei meu tempo por aqui. As principais coisas que me ocupam adquirem mais ou menos sentido na escala de prioridades à medida que o tempo também se torna maior ou menor. Mas, o tempo é uma coisa bastante relativa.

Mais uma abocanhada e leio no rodapé da notícia uma chamada para outra matéria apocalíptica à espera do meu clique: “Sanduíches são tão nocivos ao ambiente quanto carros, diz estudo”. Eu não clico. Enquanto engulo meu hambúrguer, o tic-tac dos ponteiros ressoa em minha consciência. Sou uma bomba relógio atômica e estou a dois minutos do fim. Ainda que o Trump não se mova, estou mastigando o mundo e emitindo CO2 nesse instante.

Abandono o sanduíche, guardo o celular, me alieno do noticiário, esqueço as mentes brilhantes do passado, os idiotas do presente e saio para uma caminhada. Resta pouco a cada um de nós. 120 minutos ou 120 anos, estejam certos os Cientistas Atômicos ou não, fato é que a vida é um tilintar dos ponteiros em nossa consciência. E às vezes, ao olhar para trás, para nossos últimos dias e meses, conseguimos refletir sobre como temos tratado aquilo que alegamos ter real valor em nossa breve existência.

Enfio a mão no bolso, saco o telefone outra vez, acesso a tela inicial e aperto o pequeno ícone verde no canto inferior. Em cinco segundos, escuto:

– Alô?
– Oi, amor. Tá tudo bem por aí?
– Tudo.
– Você tem dois minutos?